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quinta-feira, 23 de junho de 2011

Santiago a trabalho, Viña no fim de semana

Estou agora no aeroporto de Santiago esperando o voo de volta para o Brasil. Vim para o Chile na sexta passada, tinha uma reunião neste mesmo dia mas acabou sendo cancelada. Pelo menos tive tempo para descansar e aproveitar o final de semana. O motivo da vinda: participar em uma feira sobre energia hidrelétrica no Chile, já que há pouco fechamos um contrato com a instituição que organizou a feira.

Foi bom ter vindo na sexta, pude aproveitar um pouco mais o final de semana e conhecer um pouco mais o país. No sábado peguei um ônibus e fui para Viña del Mar visitar uma amiga chilena, a Romina, que mora nesta cidade. A viagem demorou pouco mais de uma hora e meia e, como o nome já diz, Viãa fica bem em frente ao mar. Mesmo com o tempo horrível que fez, deu pra perceber um pouco a dinâmica da cidade, que é bem espalhada e limitada de um lado pelo mar e do outro por morros e montanhas.

No sábado à noite fomos para um bar perto do apartamento da Romina, bem pequeno mas muito legal. Ela sempre toma mojito neste bar, mas eu, como sempre, acabei tomando uma cerveja. Uma banda tocou no espaço, um som um pouco diferente mas interessante. Na primeira parte do show, um pouco mais clássico, conservador. Na outra metada, mais barulhento e pesado.

No domingo não fizemos muita coisa, o tempo estava um pouco melhor mas ainda longe de estar bom. Fomos a um restaurante e comemos um pouco da culinária tradicional chilena: peixe e frutos do mar. Experimentei o famoso pisco sour mas não gostei, muito doce, lembra bastante caipirinha. Gostaria de ter conhecido Valparaiso também, que fica bem ao lado de Vina. Talvez na próxima.

De volta à Santiago, o pouco que consegui aproveitar e conhecer mais foi, de novo, a culinária. Fui à um bar/restaurante perto do hotel, que gostei bastante. O lugar, que se chama Liguria, era um pouco diferente, descolado, músicas legais tocando ao fundo, lembrava um pouco a Peluqueria Francesa da última visita à Santiago. Acho legal também que os chilenos colocam abacate em tudo, comem junto com a comida, misturam nos lanches e sanduíches, é muito bom. Durante a feira em que participei, pedi um cachorro-quente e... veio com abacate também! Essa me surpreendeu. Mas o pior é que combinou.

Outra coisa que notei também é que aqui no Chile os kebabs são muito mais populares que no Brasil. Só perto do hotel, achei uns três lugares que vendiam essas delícias e acabei experimentado dois deles: um mais tradicional; o outro com pitadas chilenas e, claro, lascas de abacate. Não me espanto que esteja acima do peso e entre um grande prato e outro aqui no Chile, me veio à cabeça uma resposta para usar de bate-pronto aos meus amigos e familiares na próxima vez que caçoarem do meu peso: “pelo tanto que como e bebo, isto não é nada!”.

Comparados com os dois dias da feira, hoje foi bem mais tranqüilo, tive apenas duas reuniões e cheguei cedo e com calma no aeroporto. Li bastante durante a viagem e terminei agora pouco um livro do Mario Benedetti, A borra do café. Típico deste escritor, um livro muito agradável de ler, contando a trajetória, acontecimentos e experiências de um garoto comum que nasce e cresce em Montevideo. Suas primeiras experiências amorosas, amigos do bairro, mudanças de casa, tudo é narrado de maneira simples mas maestral.

Meu voo está sendo anunciado, timing perfeito, já que acabei de escrever um pouco mais sobre o que vivenciei no país dos andes desta vez. Tomara que da próxima eu venha a turismo e tenha mais tempo para desfrutar com calma.

Última semana em Frankfurt

Sem eu perceber minha pequena estada em Frankfurt havia chegado ao fim. Quando dei conta, já me encontrava na última semana e estava cheio de coisas para fazer, já que estava acontecendo o treinamento anual do fundo de carbono, mas também precisava resolver algumas outras pendências. Tirando o chinês e a indiana, vários outros colegas chegaram para passar esta semana e discutir sobre nossa atividade dentro do banco.

Devido ao incerto mercado de carbono atual, o ânimo dos colegas nao estava lá entre os melhores, mas mesmo assim nos reuníamos para fazer alguma coisa depois das várias apresentações e discussões diárias. Fomos um dia a um restaurante mexicano, no outro comemos comida persa (fiquei um pouco desapontado), nos encontramos em cafés alemães. Acho sempre muito legal estar em um meio internacional, cheio de pessoas diferentes com origens distintas: China, Argentina, Indonésia, Índia, Quênia, Filipinas.

Outra coisa divertida que fizemos, organizada pelo banco especialmente para nosso encontro, foi andar por Frankfurt com uma Bier Bike. Do tamanho de uma mesa grande, nesta bicicleta (maior que muitos carros) 10 pessoas pedalam ao mesmo tempo enquanto outras 6 pessoas ficam sentadas sem precisar se enforcar. No meio, onde estão localizados o barril de chope e outras bebidas, fica uma pessoa cumprindo a função de garçom e servindo os pequenos atletas. Uma pessoa da empresa fica no comando da grande e engraçada bicicleta. Por onde passávamos atraíamos olhares risonhos das pessoas, que nos acenavam, tiravam fotos, comentavam. Até metade do passeio eu pedalei como um camelo, a pedalada era muito pesada. Fizemos um pit-stop e mudei minha função para garçom da turma. Me saí bem, servir era muito mais fácil e divertido que pedalar.

No último dia foi organizado um outro passeio, desta vez mais tranqüilo mas não tão divertido. Andamos de barco pelo Rio Main, que corta Frankfurt, durante mais ou menos uma hora. Ficamos conversando mas ninguém se encantou muito com a paisagem. Muito menos eu, que dias antes havia feito outro passeio de barco com meus pais pelo Reno, que é muito mais interessante.

Reservei o sábado (último dia) para fazer um pouco de compras. Por compras leia-se, por favor, lembranças para amigos e encomendas, já que eu nunca compro algo para mim mesmo. Minha ideia era comprar mais um livro para ler no Brasil, mas como acabei dormindo tarde adentro, acabei ficando sem tempo de ir à livraria. Sentiria na pele, horas depois, no voo, as conseqüências de ter tirado esta soneca prolongada durante a tarde. Se dormi por uma hora no apertado avião, acho que foi muito.

Em resumo, o breve tempo que passei na Alemanha foi muito proveitoso. Principalmente no começo, trabalhei bastante e não tive muito tempo para fazer programas particulares durante a semana. Pelo menos nos finais de semana consegui aproveitar mais, viajar um pouco, conhecer novos lugares, encontrar com pessoas conhecidas e me divertir.

É de se espantar o nível de organização e riqueza da Alemanha, mesmo ficando por quase dois meses neste país, não cansava de ter novas experiências que me mostravam, cada vez mais, um pouco mais da Impossible Germany. Sem contar o tempo, perfeito, agradável, que também contribuía, segundo um amigo meu, para que os alemães também ficassem mais simpáticos.

sábado, 21 de maio de 2011

Chile

Sempre vi o Chile como o exemplo para a America Latina. O pais e bem mais organizado que seus vizinhos, tem um sistema de educacao exemplar, nivel de exportacoes altos e condicoes estaveis e atrativas para o investimento externo. Na semana passada, em uma breve viagem inesperada, tive a oportunidade de conhecer Santiago, junto com meu chefe e minha chefe da Alemanha. Do pouco que pude ver e perceber - fiquei apenas 3 dias na capital chilena -, minhas impressoes acima puderam ser comprovadas.

Santiago e uma cidade grande mas nao tao desorganizada como outras no continente. Apesar de ter bastante transito, nada se compara com Sao Paulo, por exemplo. As ruas sao extremamente limpas e as pessoas parecem ser educadas. Em um dos centros financeiros da cidade, arranha-ceus sao construidos. Fui para Santiago a trabalho e, por isso, estive em varios escritorios. Em um deles, que ficava no 40o andar, a vista para a cidade era impressionante. Para subir e descer pelo elevador, apenas alguns segundos, chegava ate fazer pressao no ouvido.

A viagem foi intensa, sem falar no fuso horario que deixou as coisas ainda um pouco mais dificeis. Na segunda-feira, primeiro dia no Chile, fui dormir quase meia-noite, que na Alemanha, onde estava acostumado com o fuso, ja eram seis da manha. Como nao tive tempo para quase nada, minhas experiencias chilenas se resumiram em ver um pouco a cidade indo de um lugar para o outro, reunioes e conversas com chilenos, que, por sinal, sao bem orgulhosos de seu pais e, claro, a culinaria.

O restaurante do hotel era muito bom, nas duas noites jantamos nele. Em todas as refeicoes no Chile eu comi peixe ou frutos do mar, tudo uma delicia. Ser um pais extremamente fino e cumprido, exposto ao mar, tem la suas vantagens. Em um almoco, depois de um colega de Frankfurt dar a dica, fomos para um restaurante chamado La peruqueria francesa. O lugar fazia juz ao nome, logo que entramos, vimos que do lado havia um cabelereiro onde alguns senhores trabalhavam. O restaurante tinha uma decoracao muito diferente e bem despojada, uma mistura da antiga casa do meu tio Mauricio com as kneipes de Berlim. O ambiente era decorado com items antigos e a venda. Comi um prato muito diferente, atum grelhado por fora e cru por dentro, geleia de frutas vermelhas e uma coisa que parecia um pure de batatas, mas doce.

Comilancas e gula a parte, conseguimos finalmente fechar o contrato com a instituicao que estavamos negociando. Vamos ser o comprador de creditos de carbono do projeto e tambem ajudaremos na implementacao do mesmo, que consiste em criar uma plataforma para facilitar a implementacao de pequenas hidreletricas no Chile. Este acontecimento teve um significado importante para mim, ja que foi o primeiro projeto que foi finalizado. O segundo passo agora e trabalhar para que tudo seja implementado corretamente.

Depois de tres interminaveis dias, na quarta-feira a tarde fomos para o aeroporto e pegamos um voo para o Brasil, para aproveitar que estavamos na America do Sul e conversar com alguns parceiros em Sao Paulo. Dormi duas noites em casa, consegui ainda encontrar alguns grandes amigos na quinta e, ja na sexta, embarquei para a Alemanha com a minha chefe. Conversamos bastante no voo, ela e simpatica e aberta. Chegando no quarto do hotel em Frankfurt, dormi da uma da tarde ate as 9 da noite, justo agora que tinha me acostuma com o fuso do Chile e Brasil. Escrevo essas linhas as tres da manha e desconfio que terei que contar varios carneirinhos ainda. De volta ao Chile: vamos ver se da proxima vez consigo conhecer um pouco mais deste pais e sua capital, as primeiras impressoes foram positivas.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Primeiros dias em Frankfurt

Sem eu perceber, o dia de deixar o Brasil a caminho de Frankfurt chegou. Como comentei em outro post neste blog, vim para a cidade onde está a sede do KfW - banco onde trabalho - para ficar pouco menos de dois meses, trabalhando com projetos do Brasil mas também para conhecer melhor a empresa e os colegas de trabalho. No voo, tudo tranquilo; acho que foi a vez que mais dormi em um voo, mesmo estando igual sardinha enlatada. Incrível.

Por enquanto o dia a dia no trabalho tem sido puxado. Cheguei no meio da tarde da última quarta-feira e logo fui para o pequeno mas agradável apartamento/hotel. Logo depois caminhei até o KfW, que fica bem perto do hotel, para dar "oi" pro pessoal do escritório. Já na quinta comecei realmente a trabalhar, depois de dormir bem durante a noite e me recuperar do fuso. Por causa de alguns pepinos, fiquei até quase dez da noite trabalhando. Ontem e hoje trabalhei até às 8. Mas nao posso reclamar, quanto mais trabalhar por aqui, mais aprenderei e aproveitarei este pequeno intercâmbio.

A hora do almoco no KfW é demais. O banco tem vários prédios descentralizados aqui em Frankfurt, um do lado ou perto do outro - um contraste com outros arranha-céus de outros bancos da cidade. Em um dos prédios fica a cantina, onde todos os funcionários almocam. O espaco é bem legal e tem três tipos de cardápio para escolher, sendo um deles vegetariano. Sem falar também na salada, sopa e sobremesa. Esses dias tomei uma sopa de aspargos que estava ótima! Pra beber, água com gás. Vai ser bom que assim eu passo a tomar menos coca-cola, já estava ficando viciado.

Até poucos dias atrás eu estava tendo sorte com o tempo. Apesar de ainda ser abril, já está relativamente calor. Bem de manha e à noite é um pouco friozinho ainda, mas durante o dia bem confortável. Passei a páscoa na Suíca (mais no próximo post) e o tempo também estava ótimo. O que eu mais gosto: aqui está comecando a escurecer bem depois das oito e, com o passar do tempo, isso vai acontecer mais tarde ainda.

Mesmo estando um tempo legal aqui em Frankfurt, eu nao tive tempo de fazer quase nada. Como comentei, estou saindo tarde do trabalho, chego no apartamento e, quando vejo, já é hora de dormir. Amanha vou ver se saio um pouco mais cedo e vou nadar em um clube, descobri uma piscina que custa só 4 euros pra nadar. E nao é por hora, nao. Quatro euros e pode-se passar o dia todo na água! Cheguei à conclusao definitiva de que muitas coisas aqui sao mais baratas que em Sao Paulo. Se nao o sao, pelo menos nao é tao mais caro. Um exemplo prático é o Burger King, que custa bem menos que no Brasil. Nosso país (especialmente Sao Paulo) está ficando muito caro.

Uma coisa que tem sido totalmente diferente de minha rotina no Brasil é o fato de eu ver TV aqui. Eu chego do trabalho e umas das primeiras coisas que faco é ligar a TV. No Brasil só encosto na televisao pra assistir a algum DVD. Gosto de ver as notícias, às vezes passa uns filmes legais também. Sem falar que fico, automaticamente, treinando o alemao. Logo quando cheguei, um dos grandes temas era se a Alemanha deveria ter limite de velociadade em suas Autobahns e discussoes políticas com relacao ao futuro da energia nuclear no país.

Para finalizar, duas curiosidades: aqui na Alemanha (e agora acredito que em todo mundo) as páginas amarelas também se chamam páginas amarelas, mas em alemao fica Gelbe Seiten; os números de telefones de Frankfurt nao têm sempre a mesma quantidade de dígitos, já cheguei a ver desde 5 até 10! Imaginem ter um telefone em casa que seja 15378 e um no trabalho como 7656-987861. Vai saber... Eu até agora nao consegui decorar nenhum dos dois, nem do trabalho, nem do hotel.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Impossible Germany

Em breve realizarei um pequeno sonho que sempre tive: irei trabalhar e fazer um treinamento em Frankfurt, sede do KfW. Meu sonho, na verdade, é trabalhar por mais tempo, pelo menos 6 meses ou um ano, mas penso que os dois meses que passarei nesta cidade serão um bom começo. Voarei no dia 19 de abril e com volta marcada para 11 de junho, logo após a semana de treinamento do Fundo de Carbono para as pessoas que trabalham fora da Alemanha. Como podem ver, tirei o maior palitinho da sorte e ficarei algumas semana a mais.

Tomei a notícia de supetão, em uma reunião com a Karin, minha chefe da Alemanha. Ela havia conversado com o Jürgen, meu chefe de Brasília, e os dois acharam que seria legal eu experienciar um pouco mais o banco onde trabalho. Porém, quando ela me contou seus planos para mim, ainda faltava a aprovação final do chefe-mor do fundo. Fiquei um pouco ansioso, até que o e-mail de confirmação finalmente chegou. Ufa!

A ideia é que eu continue com as tarefas diárias que desempenho no Brasil mas trabalhe também com outras pessoas do time na Alemanha. A área principal vai ser Portfolio Management, para me capacitar nas operações depois que um projeto é adquirido (atualmente eu só trabalho com aquisição). Tratarei bastante também com colegas de outras áreas como gestão de fundos e comercialização. Se eu entendi certo, será um mini programa de trainee informal. Estou muito animado.

Fora o lado profissional, será também uma ótima oportunidade para conhecer melhor Frankfurt, outras cidades da Alemanha e talvez, por que não?, outros países. Já escrevi neste blog um pouco sobre Frankfurt quando estive, no ano passado, na semana de treinamento do departamento. A cidade é bem agradável, bonita e pequena. Apesar de ter passado duas semanas na capital financeira da Europa, ainda ficaram lugares que eu gostaria de ter conhecido mas não consegui, como os parques Palmengarten e Grüneburgpark, ambos do lado do KfW. Sem falar em maravilhas como as cervejas alemãs, kebabs, salsichões, restaurantes internacionas acessíveis, ônibus e metrô que funcionam por todos os lados, etc. Quero ver também se consigo comprar um bicicleta pra me locomover com mais flexibilidade.

Com certeza quero passar pelo menos um final de semana em Berlin e outro em Munique. A primeira cidade porque é uma das que mais me fascinou até hoje (se não a que mais), a segunda porque ainda não a conheço e todos falam muito bem dela. Vou ver se consigo fazer uma visita rápida pros amigos e família hospedeira da Suíça. Vão faltar finais de semana pra tanta coisa que quero fazer! Estou achando que estes dois meses serão bem intensos e produtivos. Melhor assim, ich freue mich!

Sobre o título deste texto: é uma das músicas que mais gosto do Wilco, uma grande banda de Chicago que escuto sempre. Eu não me ligo muito na letra dela, mas sempre relaciono, por causa do nome, com a Alemanha. Foi assim quando passei um mês em Berlin; um pouco antes, quando fiquei sabendo que havia ganhado a bolsa para esta cidade; quando, agora, descobri que iria, mais uma vez, passar alguns meses neste país que tanto me fascina e impressiona.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Montevideo

Continuando o relato anterior, cheguei em Montevidéu tarde da noite, talvez até da madrugada, não me lembro. Sim, da madrugada, agora sei, eram duas horas passadas. Fui até o hostel que havia reservado, me arrumei e desmaiei na cama. Acordei bem mais disposto e conversei com a recepcionista pra pegar umas dicas da cidade, sendo a melhor delas a ideia de alugar uma bicicleta e andar pela rambla. Já-já conto mais.

Essa foi a terceira vez que estive na capital do Uruguai, cada vez um pouco diferente das outras. A primeira, com meus pais, vindo de carro do Brasil. Com os amigos de Campo Grande foi a segunda, estávamos em Buenos Aires e fomos até a capital vizinha, enquanto, no Brasil, as pessoas jogavam confetes uma nas outras e bebiam demais. Desta vez fui a trabalho e, como era feriado no nosso país, acabei indo um dia mais cedo para aproveitar a cidade.

Devo dizer, adoro Montevidéu! Não sei explicar porquê, apenas me identifiquei com esta cidade desde a primeira vez que estive nela. É um lugar calmo para caminhar, cheio de praças, as pessoas são educadas... Pra não falar nas ruas cheias de árvores, o cheiro especial da cidade e a culinária, carne, carne e mais carne, com um pouco de bom vinho para acompanhar.

Na primeira vez, com meus pais, acabamos entrando em um restaurante e tivemos um dos melhores almoços de todos os tempos, estava tudo muito bom. Eu e meu pai tomamos uma garrafa de vinho, enquanto isso chovia torrencialmente lá fora. Foi uma tarde muito especial, ficamos conversando e, depois de muito tempo, voltamos a caminhar por Montevidéu. Tentei porque tentei achar este mágico restaurante na segunda vez, quando estive com o pessoal, mas não consegui. Mas não é que eu estava andando pelo centro com minha bicicleta (daqui a pouco conto mais!) e me deparo com o tão esperado restaurante? Desta vez não cometi o mesmo erro, marquei o nome do lugar e até ganhei um imã de geladeira; agora, toda vez que abro a porta do congelador, vejo o nome La Torre. Da próxima vez será mais fácil.

Foi um pouco entranho passar por lugares que havia visitado com meus pais ou amigos, o porto, as praças, os prédios, as playas. Foi até um pouco melancólico, pra falar a verdade. Desta vez estava sozinho, não que seja um problema, eu viajo bastante sozinho e me viro nos 30, mas com (boa) companhia a viagem fica muito mais legal.

Agora, finalmente, o breve relato sobre o aluguel da bicicleta. Como comentei, fui recomendado a alugar a bicicleta e ficar andando pela rambla. Dito e feito, foi um dos passeios ou turismo mais legal que já fiz. Como a rambla é muito extensa, com a bicicleta é muito mais legal e se pode ver muito mais da cidade. Não sei como não tivemos esta ideia antes. Com os amigos, ficamos caminhando por horas e não andamos nem a metade do que eu andei com a bicicleta. O fato da capital uruguaia ser plana também ajuda bastante.

Como não podia ser diferente, parei em uma biblioteca (muito legal, por sinal) e me dei de presente três livros de autores uruguaios: um do consagrado Mario Benedetti, outro do Horacio Quiroga, que também já conhecia, e o último do Gabriel Richieri, que enquanto escrevo estas linhas, foi o único dos três que li até agora. Gostei bastante do livro, que é uma autobiografia do autor em forma de novela ou pequenos contos, deu pra sentir bastante como era a Montevideu de décadas passadas. Até transcrevi uma parte do livro aqui no blog, posts atrás.

De volta ao aeroporto, três dias, algumas reuniões e uma palestra em portunhol depois, percebi como o aeroporto é bonito: estrutura ampla, limpa, claro e cheia de vidros. Uma ótima primeira impressão para quem chega a um país; pra quem vai embora, um adeus simpático.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

A República Dominicana de hoje e a da ditadura no passado

Depois de três dias em Bogotá acabei indo para Santo Domingo, capital da República Dominicana. Nunca imaginei que fosse conhecer este país, ainda mais tão cedo assim. O congresso para o qual eu havia sido convidado era sobre o mercado de carbono na America Latina e Caribe. Fiz uma apresentação no segundo dia do encontro sobre Programa de Atividades (PoA), um tipo de programa de crédito de carbono onde se pode agrupar vários pequenos projetos semelhantes. Estava um pouco ansioso no começo, nunca havia feito uma palestra pra tanta gente, ainda mais em inglês. Mas deu tudo certo, passei a mensagem.

Pra falar a verdade, eu estava a princípio mais interessado em descobrir como seria a vida neste país caribenho do que nas praias em si. A primeira impressão que tive ao chegar em Santo Domingo foi o calor. Ou melhor, o calor e a umidade, lembrando bastante Manaus, mas talvez não tão perto do inferno quanto a capital do Amazonas.

Tive sorte de ficar hospedado no mesmo hotel onde a conferência se realizou. Uma: o hotel era na beira-mar; apesar de ficar o dia todo infurnado nas salas de conferência, dava pra dar uma escapada até o saguão do hotel e olhar o mar (do lado de dentro, lá fora era muito quente!), parado e verde. Outra: ter um quarto no mesmo local da conferência serviu como ponto de apoio para trabalhar ou até descansar.

Na primeira noite, logo após minha chegada à ilha, pedi informação no guichê e fui até um restaurante pra tirar a barriga da miséria. No pequeno percurso (o restaurante ficava na mesma quadra do hotel) fui abordado mais ou menos 13 vezes por cafetões que queriam porque queriam que eu entrasse nas casas e conhecesse suas garotas. Incrível com eles reconhecem um gringo de longe. Eu não sabia que eu parecia um gringo. Será? Após me desvencilhar de todos eles, cheguei ao restaurante, comi um sanduíche sem graça e conversei um pouco com o garçom, que, segundo ele, havia atendido nosso presidente Lula há pouco tempo. Coitado do Lula se comeu o mesmo sanduíche que eu.

Fiquei impressionado com o tanto de SUVs que andam pelas ruas de Santo Domingo. A cada dois carros, um era grande e alto. Depois de averiguar um pouco descobri as razões: status (como não?) mas também lei da sobrevivência, já que as ruas não são muito boas e no período das chuvas parte delas ficam inundadas. Havia também muitos desses caminhões enormes que a gente só vê nos filmes americanos, como aquele no doFalcão.

Já que não conseguia aproveitar durante o dia, acabei saindo à noite e descobrindo um pouco como a cidade funcionava depois do horário comercial. Nos três dias do fórum acabei indo para bares ou restaurantes com um pessoal que conheci durante o dia. Isso foi bem legal, pessoas do continente todo, alguams eu já conhecia de outros eventos, a maioria não. Em um desses bares, depois de um cocktail organizado pelo evento, estava conversando com meus novos amigos quando, de repente, olho para o fundo do bar e vejo um caboclo, capacete na cuca, taco de beiseball na mão, rebatendo as bolinhas que uma máquina cuspia. Achei incrível, parecia que estava sonhando. Imaginem um bar no Brasil onde se pode jogar beiseball sozinho! Depois fiquei sabendo, este é o esporte mais difundido na República, eles até exportam jogadores pros Estados Unidos. Cada país com seu esporte.

Na útima noite, quando o congresso havia acabado, fomos comemorar em um restaurante requintado na Cidade Colonial. Esta parte da cidade é bem interessante, parece um forte com construções muito antigas, nunca havia visto algo parecido. Comemos muito bem e, pra variar, seguimos pra outro bar depois. Encarnamos o espírito espanhol e acabamos mundando pra outro bar ainda. Esta noite foi bem divertida.

Pra fechar a viagem com chave de ouro, fomos no sábado pra uma praia chamada Guayacanes, distante uma hora da capital. Quem nos levou foi uma local que tinha trabalhado no seminário e fez amizade com a gente. É claro, fomos de SUV para a praia, que era linda! A água do mar era verde azulada ou azul esverdeada, impossível definir. Ficamos a manhã e tarde toda conversando, dando rizada e até eu, que não sou muito fã de água, acabei entrando no mar. Valeu a pena!

***

Um pouco antes de embarcar para a Colômbia e República Dominicana, a Danusa me presenteou com mais um livro do Mario Vargas Llosa, A Festa do Bode. O momento não podia ser melhor, já que a história se passa na Santo Domingo do começo da década de 60 e ilustra quão terrível era vida sob a ditadura de Trujillo, presidente do país que acabou sendo assassinato em 1961.

Até o nome da cidada mudou durante o período da ditadura, tornando-se Capital Trujillo. O ditador era ferrenho, mandava matar seus companheiros por qualquer desconfiança, abusava de suas mulheres, humilhava o povo, e daí pra pior. Lendo o livro tive a impressão de que as ditaduras do Brasil ou Argentina foram fichinhas em comparação com a da República Dominicana.

Como na maioria dos livros do Vargas Llosa que li, a trama é muito bem elaborada. O personagem principal é uma mulher, filha de um alto funcionário durante o regime ditatorial, que volta para Santo Domingo após vários anos de refúgio nos Estados Unidos. Conforme a leitura vai se desenvolvendo, começamos a perceber os reais motivos da volta da personagem principal à terra natal. Paralelamente (característica do escritor) outra trama se desenvolve lentamente: um grupo contra o regime está prestes a atacar o carro do ditador para matá-lo e, talvez assim, acabar com o regime sangrento e injusto.

Foi interessante pelo menos começar a ler o livro antes de chegar em Santo Domingo, pude identificar algumas coisas como nome de praias ou bairros, clima e até a cerveja local, Presidente, que por sinal é muito boa. Talvez se o livro não possuísse tantos detalhes, a leitura fosse um pouco mais dinâmica, mas, de maneira geral, o livro ainda é muito bom e passa um belo panorama das dificuldades deste país durante sua ditadura. Provavelmente se a ditadura ainda estivesse presente, eu não teria conhecido a República Dominicana. Muito menos escrito estas linhas, é claro.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Ansiedade

Sou ansioso, sempre soube disso. Ultimamente até comecei a tomar um medicamento para combater esta anomalia comportamental, mas parece que às vezes a genética fala mais alto. Afinal, sou filho do meu pai, sobrinho do meu tio e neto da minha avó materna, todos bastante ansiosos. E esses dias não deu, a ansiedade me corroeu por dentro por alguns minutos intermináveis. Uma ocasião besta, mas a ansiedade é assim, quando se manifesta, é difícil controlar.

O dia começou calmo. Estava no trabalho e às 10 da manhã, a convite do Fernando, colega de trabalho, participaria de uma reunião com um auditor que já conhecida, interessado em juntar esforços da instituição em que trabalha com a nossa para realizar um seminário sobre um assunto qualquer. O auditor é uma peça-rara, eu já havia me encontrado com ele uma única vez, o suficiente pra perceber seu estilo único de jesticular e falar. Talvez um pouco por não ser brasileiro, mas sim de um país da América Central. Como diriam os próprios falantes da língua espanhola, um tipo raro.

Eu gosto de reuniões de trabalho, elas quebram o clima do trabalho em frente ao computador e é sempre muito bom conversar com pessoas pra saber o que se passa em outras esferas profissionais. Geralmente elas duram uma hora e podem ser das mais variadas possíveis. Algumas são interessantes, outras já sabe-se desde o começo que não acontecerá nada de relevante, outras surpreendem. Existem pessoas mal-educadas em reuniões, pessoas simpáticas; alguns falam bastante, outros querem basicamente ouvir.

A reunião com o auditor, apesar de ter começado meia hora atrasada - problemas com o trânsito, ele justificou - trascorreu muito bem. O Fernando, porém, já havia me falado que não estava esperando nada de interessante. Dava mesmo pra perceber, enquando o auditor falava, um pouco animado, ele ficava desenhando quadrados e retângulos na beira de seu caderno de anotações. Não precisava disso, mostrar desinteresse de forma tão clara; forçou a barra, o Fernando.

No final das contas o Fernando teve que sair mais cedo por conta de outro compromisso e eu fiquei batendo um papo com o auditor, que ainda tinha algumas coisas a falar comigo. Quando eu achei que a reunião seria terminada, ele falou que iria ao banheiro e continuaríamos depois. Sem problemas, pensei. Mostrei à ele o caminho para o banheiro e fiquei aguardando na sala. Estava bem, a ansiedade nem demonstrava o mínimo sinal. Ele voltou, conversamos mais alguns minutos e deu a hora de ir embora, o horário de almoço estava se aproximando e meu estômago roncando. Porém, na hora de ir embora percebi que ele não queria realmente ir embora. Queria conhecer os outros escritórios do mesmo andar, todos vinculados de alguma maneira com a Alemanha: câmara de comércio, instituições de pesquisa, escritórios de turismo, banco (onde trabalho), etc.

Disse a ele que não conhecia muito bem o andar em que trabalho e acabei mostrando pra ele a sala de uma instituição de pesquisa e ciência, ao lado do escritório onde trabalho. Somente uma mulher estava trabalhando. Apresentei-os e começamos os três a conversar. Ele queria saber o que exatamente eles faziam, ela começou a explicar. Pelo sotaque, era alemã, como muitos do 3o andar. Já no início da conversa, a ansiedade começou a me atrapalhar, ficava mudando o pé de apoio toda hora, estávamos os três conversando em pé. E ele não parava de fazer perguntas; ela dava corda. De poucos em poucos minutos eu tirava o celular do bolso pra checar que horas eram, mas não estava interessado no horário em si, era automático. Quando a conversa chegava ao fim, o auditor arrumava outro assunto e o diálogo ganhava força de novo. Uma hora quase fomos embora, já estávamos nos despedindo, quando ele perguntou de onde ela era. Ao falar que era alemã, ele puxou papo em alemão, eu nao podia acreditar! O auditor havia morado muitos anos na Alemanha, começaram a falar da diferença de se morar no Brasil e na Alemanha, o clima, as pessoas, infra-estrutura, todas as diferenças que quem já passou pelo menos um dia em cada país está careca de saber. No verão era muito bom, eu sempre fazia churrasco com meus amigos, dizia o auditor. Enquanto isso a alemã falava do tempo gasto em São Paulo para se deslocar da casa ao trabalho. As pessoas, porém, eram mais amigáveis no Brasil. De vez em quando eu concordava com a cabeça e falava alguma coisa, não queria passar por chato e ficar como uma estátua no meio dos dois. Na verdade eu só queria sair de lá bem rápido, os dois já haviam conversado bastante. O papo vai acabando, mas o auditor recomeça: uma vez decidi viajar de carro com um amigo para o mar, fomos de última hora, logo depois voltamos. Percebi que até a alemã já estava ficando um pouco sem graça. Tinha notado também que o auditor queria algo mais e logo confirmei minha teoria: ele, antes de começar a trabalhar como auditor, se dedicou à ciência em algumas instituições na Alemanha. Havia entrado pro mundo das auditorias por acaso, o que gostava mesmo era de pesquisar. Nós não estávamos naquela sala por acaso. Não era à toa que ele encompridava o papo com a garota do escritório de pesquisa. Quando realmente não havia mais o que encompridar, finalmente nos despedimos.

Como sempre quando uma reunião acaba, levei o convidado até a porta de saída. As palavras de despedida são sempre as mesmas: obrigado por ter vindo, a gente vai mantendo contato, bom final de semana ou uma boa semana ainda, etc. Quando voltei para o escritório, estavam quase todos de saída para o almoço. Incrivelmente, em poucos segundos, minha ansiedade havia se dissipado, não havia nenhum traço sequer do anterior sentimento atordoante. Era hora do almoço, estava feliz, estava tranquilo.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Frankfurt (2)

A segunda semana em Frankfurt foi tão boa quanto a primeira, apenas um pouco diferente. O treinamento foi mais específico e com todo o time do Fundo de Carbono; algumas pessoas eu já havia conhecido na primeira semana, isto é, trabalhavam para o Fundo de Carbono e eram, como eu, recém-contratados. Foi muito legal conhecer os rostos da pessoas que eu costumava lidar em São Paulo pelo telefone ou e-mail. Algumas eu achava que eram mais velhas, outras mais novas. Engraçado.

Foi muito importante conversar durante toda a semana sobre o mesmo assunto, conhecer as dificuldades e pontos fortes de outros países, receber sugestões, etc. Os últimos dias foram destinados para as apresentações da estratégia para o final de 2010 e 2011 de cada país que faz aquisição de créditos de carbono. Para encerrar a semana, fomos na sexta-feira a um restaurante muito agradável perto do banco. Comemos ao ar livre em uma nível mais alto que do térreo, a vista era bonita, muito verde na Europa nesta época do ano.

Como na primeira semana, o KfW organizou atividades recreativas para depois do expediente de treinamento. Uma que eu achei bem criativa e divertida foi nossa ida a uma cozinha de um restaurante onde o chef de cozinha nos ensionou a preparar tapas espanholas. Depois dele, foi a nossa vez: nos dividimos em grupos e cada um fez um prato diferente. Eu fiquei com o Klaus e cozinhamos um tira-gosto de cogumelos e copa. Não faltou comida este dia!

Outro encontro aconteceu em um bier garten bem na frente do Main, fantástico! O único problema foi o frio que incomodou um pouco. O lado bom foi as cervejas alemãs, já comentadas aqui em outro post anterior. O legal destes encontros e atividades é que o pessoal que trabalha em um mesmo departamente em países diferentes tem a oportunidade de se conhecer melhor e ficar mais íntimo.

No final da minha estada em Frankfurt, apesar de muito divertida e proveitosa, já estava querendo voltar para o Brasil. Não sei por que mas parece que quando viajamos, nos preparamos psicologicamente para ficar o tempo estipulado e, quando vai chegando no final, já estamos cansados e querendo voltar pra rotina. Estava com saudades do meu apartamento também, não faz muito tempo que me mudei. Sem falar dos amigos e família.

Mas uma coisa é verdade: não vejo a hora de chegar o próximo encontro do Fundo de Carbono!

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Conversando com uma colega da Bukina Faso, que participou do programa da primeira semana, percebi como pode ser difícil a integração de um negro em um país majoritariamente branco. Mesmo morando há anos na Alemanha e falando alemão muito bem, ela não se sentia à vontade. Estava sempre com a pulga atrás da orelha e, segundo ela, sofrendo censuras e passando por constrangimentos. Ao sentar então em um assento no trem ou ônibus ao lado de um alemães, era constrangimento na certa. Mas você não está preparada e já esperando sofrer preconceito, eu perguntei. Pode ser, ela respondeu, talvez o problema seja eu também. Porém, estava feliz em voltar para Bukina Faso e trabalhar em seu verdadeiro país.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Frankfurt (1)

Tive sorte. Logo depois de começar a trabalhar para o KfW fiquei sabendo que meses depois do meu começo iria fazer uma viagem de duas semanas para Frankfurt com o intuito de conhecer melhor o banco, seus programas, projetos, relacao com o governo alemão, etc. Nas duas semanas, participei de dois programas diferentes: introdução sobre o KfW Entwicklungsbank e treinamento do Fundo de Carbono. Neste texto escreverei como foram os meus sete primeiros dias na capital financeira da Alemanha.

Frankfurt me impressionou desde o começo, primeiro porque a cidade é muito menor do que eu imaginava. Na verdade eu já sabia que Frankfurt tinha mais ou menos 700 mil habitantes quando deixei o Brasil, mas mesmo assim, na hora que comecei a andar pela cidade, achei que ela deveria ser maio. Maior porque é a capital financeira do principal país do bloco europeu. Ok, existem alguns arranha-céus, muito deles bem bonitos e imponentes, mas nada comparado a São Paulo ou até outras cidades menores brasileiras.

Por outro lado, Frankfurt me impressionou pela qualidade de vida que oferece a seus moradores ou aos de passagem, como eu. Existem diversos restaurantes internacionais, metrô espalhado pela cidade inteira (algo inédito para mim, se lembramos que a cidade não tem nem um milhão de habitantes)e o mais legal, muitas pessoas vão de bicicleta para o trabalho! É muito comum ver engravatados montados em suas bicicletas percorrendo as ruas de Frankfurt. Ou melhor, as calçadas. Em quase todas as calçadas da cidade existe uma faixa em vermelho destinada para os ciclistas; os pedestres precisam ficar atentos para não ser atropelados por algo sem motor!

Os meus colegas de treinamento foram os mais amigáveis e interessantes possíveis. Sem contar suas procedências: Iêmen, Bukina Faso, Madagascar, Indonésia, Egito, Palestina (achei que nunca encontraria alguém desta região), África do Sul, Ruanda, Índia e Casaquistão. Foi interessante que o KfW organizou algumas atividades extra-curriculares, como jogar boliche em uma noite ou o jantar de boas vindas no primeiro domingo. Me impressionei também como a maioria de nós ficamos bem íntimos logo nos primeiros dias; na quinta-feira, quando alguns já estavam se preparando para voltar para casa (aqueles que não teriam outro treinamento na semana seguinta), tratamos de nos reunir depois das palestras e ficamos conversando e bebericando algo para nos despedir.

Adoro esses encontros internacionais, é muito legal conversar com pessoas de todos os cantos do mundo sobre seus países, hábitos, governos, etc. Por exemplo, fiquei sabendo que vários países da África Ocidental possuem a mesma moeda, que me esqueci o nome porque tenho memória de peixe; fiquei sabendo como é o dia-a-dia na Autoridade Palestina e, para minha surpresa, é muito mais normal do que imaginava; confirmei com uma colega alemã que mora na Áfica do Sul há 20 anos que realmente o atual presidente deste país estuprou a filha de um amigo seu e confessou para todo país. Já havia lido sobre isso mas, tamanho o disparate, achei que o jornalista havia se confundido. Nosso governo é inacreditável, me disse ela.

Não é só o Brasil que pára em época de copa do mundo. A Alemanha também entrou no clima: todos os bares colocaram telões ou TVs nas calçadas para as pessoas acompanharem os jogos; muitos dos carros penduraram bandeiras para apoiar o país; pessoas andavam pintadas e festejando nas ruas. O único problema foi no jogo da Alemanha contra a Sérvia. Ninguém esperava uma derrota, eles se acanharam. Fiquei impressionado como os alemães gostam do Brasil. Um dia vi um menininho de uns 5 anos correndo com duas bandeiras na mão, uma da Alemanha, outra do Brasil. Outra hora vi um carro passando também com as bandeiras destes dois países. Quero só ver se o Brasil enfrentar a Alemanha em alguma etapa da Copa.

Não posso deixar de falar das palestras introdutórias sobre o KfW - Banco de Desenvolvimento. Não foi coincidência que todos os participantes vinham de países em desenvolvimento. Essa área do banco, a qual o Fundo de Carbono pertence, destina suas atividades somente nos países pobres ou emergentes. Teve uma palestra que explicou, por exemplo, o critério para decidir o tipo de projetos que cada país vai implementar. Eles podem ser desde eficiência energética e energia renovável (caso do Brasil) até infra-estrutura, educação ou combate à AIDS. Os tipos de financiamentos, estrutura e gestão dos projetos também foram apresentados. No final da semana estávamos entendendo o banco muito melhor do que quando chegamos em Frankfurt.

Até no Ministério Alemão de Cooperação Internacional, sediado em Bonn, nós fomos, para assistir uma palestra que explicava como o ministério trabalha com o KfW. Após a palestra, fomos para o Museu de História Moderna, que conta a história da Alemanha logo depois do final da segunda guerra mundial. O guia possuia um humor sutil e sabia muito sobre o tema. Interessante: a indústria alemã atual é muito moderna porque ao final da segunda guerra, quando o país estava dividido e ocupado, os países ocupantes - União Soviética, França, Ingraterra e EUA - levaram todos os maquinários para seus países. Só restou à Alemanha então, começar a reconstruir seu parque industrial e, como criaram tudo do novo, sua indústria ficou moderna. Até hoje.