Acabei de ler o ótimo e completo Muro de Berlim - Um mundo dividido 1961-1989, de Frederick Taylor, historiador inglês que morou em Berlim em sua infância. Em relação à época nazista de Hitler e Segunda Guerra Mundial, as décadas em que Berlim ficou dividida pelo Muro sempre me interessaram muito mais. O livro aborda a história do bloqueiro sob vários apectos, dentre eles político, cultural, social, histórias do cotidiano.
Uma vez dada a vitória dos Aliados sobre a Alemanha nazista, Berlim ficou dividida em quatro setores: russo, americano, inglês e francês. Interessante que, logo após o inimigo número um ser derrotado, uma nova ordem global foi estabelecida automaticamente, polarizando, novamente, o mundo em duas frentes, a comunista e a capitalista. O mais curioso é que não somente em um país, mas em uma única cidade, foi imprimida as duas facções antagônicas, mudando bruscamente a vida de milhares de pessoas.
Não demorou muito para a população da Alemanha e Berlim perceberem que a vida era mais agradável e grata na parte ocidental. Sendo assim, começou o processo de fuga em massa de moradores da parte oriental para o Oeste. Existiam também aqueles que, chamados de atravessadores, continuavam morando em Berlim Oriental - mais barata e culturalmente mais ativa - e trabalhando na parte ocidental, onde se ganhava muito mais. A única solução encontrada para a Alemanha Oriental de Ulbricht, e apoiada pela União Soviética de Khrushchev, foi a construção do famoso muro.
O livro narra detalhadamente a engenhosidade de Ulbricht em convencer seus chefes soviéticos de que o muro, apesar de render uma imagem negativa do comunismo aos olhos do mundo, era a melhor ou única solução para estancar a hemorragia de pessoas sentido leste-oeste. Havia também grandes atritos entre o bloco comunista e a administração do presidente Kennedy, dos EUA, marcando o período instável da Guerra Fria.
Parece inacreditável, mas a cerca de contenção de arame farpado, erigida anteriormente ao muro própriamente dito, foi concluída em apenas uma madrugada de agosto de 1961. Alemães orientais e ocidentais acordaram em um domingo e se depararam com a cerca e vários policiais orientais protegendo-a. Parecia sonho, mas não era. Também um tanto quanto atípica foi a reação do bloco ocidental à contrução do bloqueio, por parte dos comunistas. Na realidade, o que houve foi a falta de ação dos países ocidentais, uns por temerem a erupção de uma nova guerra, desta vez nuclear, outros por estarem ocupados com assuntos mais importantes, como a França em relação à independência da Argélia. Aliás, apesar de violar a vida e autonomia de todos berlinenses, a cerca, como ainda era chamada, não estava construída em território ocidental.
Gostei muito da descrição de casos famosos que ocorreram devido à construção do Muro, como por exemplo pessoas que se atiravam de prédios ao redor da cerca para passar para o lado ocidental; grupos de estudantes ocidentais que ajudavam seus conterrâneos orientais a passar para o outro lado com a ajuda de passaportes falsos ou construção de túneis; o do soldado oriental que resolveu pular para o lado ocidental e foi clicado por um fotógrafo exatamente quando o fazia, tendo a foto se tornado famosa imediatamente. Sem mencionar dezenas de pessoas que morreram tentando atravessar a fronteiro nos quase 30 anos de sua existência.
Os anos foram passando e, apesar de muitas pessoas acreditarem, no começo, que a cerca de arame teria um caráter provisório, logo ela foi substituída pelo verdadeiro muro, fortemente construído e isolado, que se tornava cada vez mais instransponível. Também com o passar dos anos outros aspectos foram mudando. O bloco comunista começava a se deparar com vários problemas de ordem econômica e foi se enfraquecendo. Houve também um movimento de afastamento das políticas pregadas por Stalin, culminando na mudança do nome da rua Stalinalee para Karl-Marxalle, por exemplo. O mundo ocidental, por sua vez, começou a empregar um política de convergência para o leste, tentando criar mais humanidade, apesar da distinta divisão política entre os dois lados, para o povo alemão, Berlim principalmente. A Alemanha Oriental começou a receber maciços empréstimos de bancos ocidentais. Porém, o problema financeiro não era resolvido.
Em meados da década de 80 a situação ficara insustentável para o bloco comunista. Entretanto, a primeira rachadura não apareceu exatamente no Muro de Berlim, mas sim na fronteira da Hungria com a Áustria. Antes também controlada rigidamente pela Hungria comunista, a fronteira começou a ficar mais permissiva, devido à União Soviética quase em colapso. Milhares de alemães viajaram então para a Hungria com o objetivo de atravessar para a Austria e, de lá, voar para a Alemanha ou Berlim Ocidental.
Não passou muito tempo e a própria RDA começou a permitir que seus cidadãos orientais pudessem atravessar para o lado ocidental, através de vistos concedidos no momento da travessia. Não havia mais o que fazer. Em novembro de 1989, exatos 28 anos após sua construção, o Muro de Berlim começou a ser derrubado. Deu-se então um movimento e política de reestruturação de Berlim e Alemanha Oriental, que possuim sistemas produtivos muito mais atrasados e ineficazes que o ocidente. Alguns dizem que até hoje a diferença é discrepante. A lado positivo é que, após longos anos tempestivos, alemães e berlinenses puderem novamente se reunificar e compor uma só nação.
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segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
quarta-feira, 13 de abril de 2011
O norte oriental de Milton Hatoum
Fugindo de sua constante de produzir romances, todos entre cem e duzentas e poucas páginas e bem intercalados temporalmente, Milton Hatoum escreveu por último um ótimo livro de contos, A cidade ilhada. Escritor manauara de origem libanesa, Hatoum deixa sua ascendência e impressões da civilização na selva influenciar todas suas histórias. Outra característica marcante de seus livros é a difícil relação que se pode dar entre pai e filho, presentes exacerbadamente em Cinzas do Norte e Orfãos do Edorado.
Tomei conhecimento deste magnífico escritor através de um amigo, que, na época, estava prestando vestibular e me recomendeu Dois irmãos, que cairia na prova. Ao me contar os acontecimentos e artifícios utilizados pelo escritor, achei interessante e acabei comprando uma edição de bolso deste livro. Nesta obra, todas suas características básicas estão presentes: a dificuldade do relacionamento familiar, raízes orientais, vida na Amazônia etc. Sem falar no final surpreendente e dúbio, que deixa o leitor intrigado. Acredito que esta é a obra mais completa do escritor e foi aí que comecei a admirar seus livros e originalidade.
Os relatos de A cidade ilhada são diversificados, excetuando a correspondência, física ou histórica, com Manaus e região. Em um conto, adolescentes resolvem, após duradouros momentos de ansiedade e impaciência, ir a um bordel em busca de novas experiências; o final, surpreendente e cômico. Em outra estória, o amor platônico entre dois jovens vizinhos que não possuem contato algum, seguido de uma repentina mudança de uma das famílias, de origem inglesa.
O fascínio também é tema dos contos de Hatoum. Em um, um renomado pesquisador japonês desenvolve um laço profundo com a região da Amazônia; em outro, é a vez de um morador da região expressar sua admiração pela França e língua francesa a um de seus pupilos, prester a conhecer o país que o admirador nunca teva a oportunidade.
Porém, um dos contos mais marcantes se intitula O adeus do comandante. Marca do escritor em seus contos, ele começa com algum personagem relatando um acontecimento, que é o próprio conto em si. Neste caso, um comandante de barco que, no meio de sua travessia, com os passageiros a bordo, abandona o barco em um ponto do percurso, para vingar uma traição com sua mulher. É explicado então, finalmente, o propósito do caixão que estava sendo transportado no barco e que assustava os passageiros, gerando especulações das mais diversas. Para mim, este é um ótimo exemplo de como o sentimento de desespero e intriga dos personagens são bem detalhados, mas também um fascinante desenrolar da narrativa em si.
Após ter lido todos seus livros publicados, que ainda não são muitos, confesso que só não gostei muito de um só, sua primeira obra: Relato de um certo Oriente. Achei a trama complexa demais a ponto de não entender certos detalhes e relações. Talvez porque na época da leitura o ambiente não me ajudou: estava na sala de aula da faculdade, desanimado com o curso, no meio do barulho infernal dos meus amigos, também desanimados, mas com a prosa em vez da leitura como refúgio.
Só me resta agora aguardar o lançamento da próxima obra de arte do Milton Hatoum. Pelo menos existe, como remédio, a opção de ler suas crônicas no Estadão a cada quinza dias, às sextas-feiras. Sempre o faço após terminar o trabalho, um pouco antes de deixar o escritório e ir para casa. É um ótimo começo para o meu final de semana.
Tomei conhecimento deste magnífico escritor através de um amigo, que, na época, estava prestando vestibular e me recomendeu Dois irmãos, que cairia na prova. Ao me contar os acontecimentos e artifícios utilizados pelo escritor, achei interessante e acabei comprando uma edição de bolso deste livro. Nesta obra, todas suas características básicas estão presentes: a dificuldade do relacionamento familiar, raízes orientais, vida na Amazônia etc. Sem falar no final surpreendente e dúbio, que deixa o leitor intrigado. Acredito que esta é a obra mais completa do escritor e foi aí que comecei a admirar seus livros e originalidade.
Os relatos de A cidade ilhada são diversificados, excetuando a correspondência, física ou histórica, com Manaus e região. Em um conto, adolescentes resolvem, após duradouros momentos de ansiedade e impaciência, ir a um bordel em busca de novas experiências; o final, surpreendente e cômico. Em outra estória, o amor platônico entre dois jovens vizinhos que não possuem contato algum, seguido de uma repentina mudança de uma das famílias, de origem inglesa.
O fascínio também é tema dos contos de Hatoum. Em um, um renomado pesquisador japonês desenvolve um laço profundo com a região da Amazônia; em outro, é a vez de um morador da região expressar sua admiração pela França e língua francesa a um de seus pupilos, prester a conhecer o país que o admirador nunca teva a oportunidade.
Porém, um dos contos mais marcantes se intitula O adeus do comandante. Marca do escritor em seus contos, ele começa com algum personagem relatando um acontecimento, que é o próprio conto em si. Neste caso, um comandante de barco que, no meio de sua travessia, com os passageiros a bordo, abandona o barco em um ponto do percurso, para vingar uma traição com sua mulher. É explicado então, finalmente, o propósito do caixão que estava sendo transportado no barco e que assustava os passageiros, gerando especulações das mais diversas. Para mim, este é um ótimo exemplo de como o sentimento de desespero e intriga dos personagens são bem detalhados, mas também um fascinante desenrolar da narrativa em si.
Após ter lido todos seus livros publicados, que ainda não são muitos, confesso que só não gostei muito de um só, sua primeira obra: Relato de um certo Oriente. Achei a trama complexa demais a ponto de não entender certos detalhes e relações. Talvez porque na época da leitura o ambiente não me ajudou: estava na sala de aula da faculdade, desanimado com o curso, no meio do barulho infernal dos meus amigos, também desanimados, mas com a prosa em vez da leitura como refúgio.
Só me resta agora aguardar o lançamento da próxima obra de arte do Milton Hatoum. Pelo menos existe, como remédio, a opção de ler suas crônicas no Estadão a cada quinza dias, às sextas-feiras. Sempre o faço após terminar o trabalho, um pouco antes de deixar o escritório e ir para casa. É um ótimo começo para o meu final de semana.
domingo, 27 de fevereiro de 2011
Os homens do Real
Recomendado por dois amigos, Presunto e Kenny, li o ótimo 3000 Dias no Bunker, de Guilherme Fiuza. O autor narra, de maneira eletrizante e dinâmica, a história da criação do Plano Real, responsável por reduzir a inflação do Brasil a patamares muito baixos. E vai além da criação, acompanhando a história deste plano ousado 10 anos depois de sua implementação, os três mil dias do título.
A história começa quando Fernando Henrique torna-se ministro da Fazenda no governo de Itamar Franco. Diferente do que eu pensava, o Plano Real começou a ser desenvolvido antes mesmo de FHC virar presidente. Para tirar a ideia do papel e implementá-la no mundo real, o antigo presidente contou com o apoio, principalmente, de dois economistas: Pedro Malan, na época ministro da Fazenda, e Gustavo Franco, que chegou a ser presidente do Banco Central.
Segundo o livro, se uma pessoa foi essencial para a criação e sustentação da nova moeda brasileira, essa pessoa só pode ser Gustavo Franco. Caráter central do bunker, Gustavo foi recomendado por Pedro Malan e convidado por FHC para tocar o audacioso plano da estabilização da inflação. Pouco antes de integrar a restrita equipe de economistas, Gustavo tinha acabado seu doutorado nos Estados Unidos. O tema: políticas de redução de inflação. O convite não poderia ter vindo em melhor hora.
Porém, uma coisa é estudar e encontrar a solução nos papéis; outra é achar o X da equação na vida real, ainda mais em um país como o Brasil pré-Plano Real, onde os juros haviam deixado o país de ponta cabeça. O tripé do Plano Real consistiu em reduzir os gastos do governo, âncora cambial e criação de nova moeda, para acabar com o estígma do aumento de preços. E como o Brasil gastava! O livro narra que vários bancos do estado funcionavam como ralos de dinheiro, que puxavam recursos da esfera federal para aumentar o orçamento dos estados. Muitas empresas estatais que não saíam do vermelho também foram privatizadas, apesar das críticas sofridas pelo governo.
A âncora cambial teve o objetivo de forçar a valorização do Real frente ao dólar, para que os brasileiros passassem a importar mais e, assim, diminuir a demanda por produtos nacionais, reduzindo a inflação. Logo após o Plano Real ter sido implementado, Gustavo Franco virou o herói do país. Era reconhecido até no avião por aeromoças e outros viajantes, que lhe davam parabéns e até pediam autógrafos. O plano estava dando certo. A vida dos brasileiros havia ficado muito mais estável.
Nem tudo são flores. Crise asiática, mexicana, apagão, desconfiança dos brasileiros e investidores, o Brasil passou por várias instabilidades que balançaram a credibilidade do Real. E a equipe do Bunker sofreu. Quando investidores começaram a tirar o dinheiro do Brasil, temendo que o país não estava tão seguro e sólido, o Banco Central decidiu elevar drasticamente os juros, para que o investimento no país passasse a ser mais atrativo. Essa manobra é muito criticada até hoje, alguns consideram que ela foi responsável por quase quebrar o Brasil.
Foi interessante ler este livro agora, já que comecei uma pós-graduação em finanças e estou estudando economia. Na última aula, o professor comentou brevemente sobre o Plano Real. Porém, de maneira não muito entusiástica. Ele argumentou que o Brasil não foi radical o suficiente para cortar os gastos mais incisivamente para acabar de vez com a inflação, e que o Plano se baseou basicamente na âncora cambial. A âncora fez com que a conta corrente brasileira se deteriorasse, já que as pessoas passaram a importar muito mais. Segundo o professor, o radical aumento dos juros se fez necessário para cobrir o rombo que ficava cada vez maior.
Outro ponto comum do professor de economia com o livro de Guilherme Fiuza é o constante atrito e divergências entre economistas ditos desenvolvimentistas e ortodoxos, sendo a pricipal corrente dos primeiros a UNICAMP em Campinas e do segundo grupo a PUC-Rio. A equipe que bolou e implementou o plano real, assim como o professor da pós, são os ortodoxos, que acreditam na liberalização da economia e pouca intervenção do Estado. Já os desenvolvimentistas, tendo como o atual ministro da Fazenda, Guido Mantega, um grande exemplo, se baseiam no protecionismo do estado, subsídios para produtores e exportadores, etc.
Apesar de muitas críticas ao Plano Real, uma delas as inúmeras referências de Lula sobre a "herança maldita" deixada por FHC, uma coisa é consenso: o Brasil se tornou muito mais estável depois da criação do Real. Temos hoje uma moeda que, apesar da recente projeção de alta da inflação, vivemos com muito mais segurança econômia e bem-estar, nada comparado ao tempo de turbulências quando a inflação chegou a bater quase 100% ao mês. Coisa de doido.
Como comentei acima, o texto de Fiuza é muito saboroso e ágil, algo que se fosse escrito de outra maneira, poderia perder seu encanto. Quando estava lendo o livro, achei a narrativa, investigativa e cheia de detalhes, bem parecida com várias reportagens que leio na revista piauí. Depois descobri, o Guilherme Fiuza é um dos jornalistas da revista! Fiquei sabendo que ele escreveu também Meu nome não é Johnny e a biografia do Bussunda. Apesar de serem temas bem variados, tenho certeza que esses dois outros livros também vão valer a pena.
A história começa quando Fernando Henrique torna-se ministro da Fazenda no governo de Itamar Franco. Diferente do que eu pensava, o Plano Real começou a ser desenvolvido antes mesmo de FHC virar presidente. Para tirar a ideia do papel e implementá-la no mundo real, o antigo presidente contou com o apoio, principalmente, de dois economistas: Pedro Malan, na época ministro da Fazenda, e Gustavo Franco, que chegou a ser presidente do Banco Central.
Segundo o livro, se uma pessoa foi essencial para a criação e sustentação da nova moeda brasileira, essa pessoa só pode ser Gustavo Franco. Caráter central do bunker, Gustavo foi recomendado por Pedro Malan e convidado por FHC para tocar o audacioso plano da estabilização da inflação. Pouco antes de integrar a restrita equipe de economistas, Gustavo tinha acabado seu doutorado nos Estados Unidos. O tema: políticas de redução de inflação. O convite não poderia ter vindo em melhor hora.
Porém, uma coisa é estudar e encontrar a solução nos papéis; outra é achar o X da equação na vida real, ainda mais em um país como o Brasil pré-Plano Real, onde os juros haviam deixado o país de ponta cabeça. O tripé do Plano Real consistiu em reduzir os gastos do governo, âncora cambial e criação de nova moeda, para acabar com o estígma do aumento de preços. E como o Brasil gastava! O livro narra que vários bancos do estado funcionavam como ralos de dinheiro, que puxavam recursos da esfera federal para aumentar o orçamento dos estados. Muitas empresas estatais que não saíam do vermelho também foram privatizadas, apesar das críticas sofridas pelo governo.
A âncora cambial teve o objetivo de forçar a valorização do Real frente ao dólar, para que os brasileiros passassem a importar mais e, assim, diminuir a demanda por produtos nacionais, reduzindo a inflação. Logo após o Plano Real ter sido implementado, Gustavo Franco virou o herói do país. Era reconhecido até no avião por aeromoças e outros viajantes, que lhe davam parabéns e até pediam autógrafos. O plano estava dando certo. A vida dos brasileiros havia ficado muito mais estável.
Nem tudo são flores. Crise asiática, mexicana, apagão, desconfiança dos brasileiros e investidores, o Brasil passou por várias instabilidades que balançaram a credibilidade do Real. E a equipe do Bunker sofreu. Quando investidores começaram a tirar o dinheiro do Brasil, temendo que o país não estava tão seguro e sólido, o Banco Central decidiu elevar drasticamente os juros, para que o investimento no país passasse a ser mais atrativo. Essa manobra é muito criticada até hoje, alguns consideram que ela foi responsável por quase quebrar o Brasil.
Foi interessante ler este livro agora, já que comecei uma pós-graduação em finanças e estou estudando economia. Na última aula, o professor comentou brevemente sobre o Plano Real. Porém, de maneira não muito entusiástica. Ele argumentou que o Brasil não foi radical o suficiente para cortar os gastos mais incisivamente para acabar de vez com a inflação, e que o Plano se baseou basicamente na âncora cambial. A âncora fez com que a conta corrente brasileira se deteriorasse, já que as pessoas passaram a importar muito mais. Segundo o professor, o radical aumento dos juros se fez necessário para cobrir o rombo que ficava cada vez maior.
Outro ponto comum do professor de economia com o livro de Guilherme Fiuza é o constante atrito e divergências entre economistas ditos desenvolvimentistas e ortodoxos, sendo a pricipal corrente dos primeiros a UNICAMP em Campinas e do segundo grupo a PUC-Rio. A equipe que bolou e implementou o plano real, assim como o professor da pós, são os ortodoxos, que acreditam na liberalização da economia e pouca intervenção do Estado. Já os desenvolvimentistas, tendo como o atual ministro da Fazenda, Guido Mantega, um grande exemplo, se baseiam no protecionismo do estado, subsídios para produtores e exportadores, etc.
Apesar de muitas críticas ao Plano Real, uma delas as inúmeras referências de Lula sobre a "herança maldita" deixada por FHC, uma coisa é consenso: o Brasil se tornou muito mais estável depois da criação do Real. Temos hoje uma moeda que, apesar da recente projeção de alta da inflação, vivemos com muito mais segurança econômia e bem-estar, nada comparado ao tempo de turbulências quando a inflação chegou a bater quase 100% ao mês. Coisa de doido.
Como comentei acima, o texto de Fiuza é muito saboroso e ágil, algo que se fosse escrito de outra maneira, poderia perder seu encanto. Quando estava lendo o livro, achei a narrativa, investigativa e cheia de detalhes, bem parecida com várias reportagens que leio na revista piauí. Depois descobri, o Guilherme Fiuza é um dos jornalistas da revista! Fiquei sabendo que ele escreveu também Meu nome não é Johnny e a biografia do Bussunda. Apesar de serem temas bem variados, tenho certeza que esses dois outros livros também vão valer a pena.
domingo, 16 de janeiro de 2011
O banco de Yunus
Após anos como chefe de departamento do curso de Economia de uma universidade de Bangladesh, Muhammad Yunus percebeu que estava no caminho errado. Trancafiado em uma sala, ensinava avançados conceitos de economia para seus alunos; fora da sala, a pobreza reinava e suas teorias não contribuiam com nada para a diminuição deste mal. Era preciso fazer algo, era preciso migrar da teoria para a prática.
E foi assim que a semente do Banco Grammen foi plantada, visando ajudar os mais necessitados de seu país, os pobres dos pobres. Mas para o banco se tornar uma árvore, forte e cheia de frutos, muito esforço foi despreendido e, como esperado, muitas vezes Yunus nadou contra a maré (bancos, governo, amigos, políticos). Porém conseguiu chegar em seu porto seguro tão sonhado após muitas braçadas. Tudo isso é narrado de forma muito fascinante em seu livro O Banqueiro dos Pobres.
O conceito do banco funciona mais ou menos assim: emprestar pequenas somas de dinheiro para que pessoas de baixíssima renda possam desenvolver alguma tarefa autônoma, seja ela a confecção e venda de tapetes, uma pequena mercearia, serviços de sapataria etc. Nenhuma garantia é requerida e, para o assombro da maioria, ainda mais daqueles que desde o começo do projeto piloto qualificaram Muhammad como louco, os pobres se revelaram belos pagadores. A inadimplência do Banco Grammen é de mais ou menos 2%. Isso em um país onde os mais ricos são conhecidos por tomarem empréstimos milionários e não pagarem. Sensasional!
Para funcionar tão bem assim, Yunus foi sensível o suficiente para perceber que seu banco precisava operar com regras muito específicas. A maioria dos tomadores de empréstimo, quer dizer, tomadoras, são mulheres. Os homens dever ficar fora do negócio e não podem até mesmo tomar conta do dinheiro. É possível imaginar tamanha a resistência deste modelo em um país islâmico. Porém, após os primeiros casos de sucesso, o modelo decolou.
Outras exigências são que os filhos da família precisam estar matriculados na escola e frequentando a mesma; os empréstimos são desenbolsados individualmente mas para um grupo de cada aldeia ou bairro, onde cada tomadora tem a função de zelar pela boa prática da outra; caso a soma total mais os (pequenos) juros seja paga, a cliente tem a opção de realizar outro empréstimo, desta vez um pouco maior, para aprimorar seu micro-negócio.
A ideia de tão certo que seu modus operandi foi replicado em vários países do mundo, incluindo o Brasil e até mesmo países desenvolvidos como Canadá e Noruega. É claro que em cada país, onde as condições sociais, culturais e financeiras variam, o banco precisa trabalhar de maneira única, porém o núcleo do sistema continua o mesmo.
Uma das coisas mais interessantes que achei do livro e do Banco Grammen é a dinâmica de trabalho. As agências existem mas os funcionários são instigados a trabalhar, em sua maior parte do tempo, nas aldeias, conversando com potenciais clientes, explicando a maneira como a instituição funciona e convencendo-os de que o banco pode mudar para melhor suas vidas. E realmente muda, como é explicitado durante o livro.
Achei bem legal que o banco em que eu trabalho, o KfW (Banco de Desenvolvimento da Alemanha), possui uma linha de financiamento com juros reduzidos com o Banco Grammen. Meu chefe comentou também que o Yunus já foi várias vezes a Frankfurt realizar palestras e participar de rodas de discussão. Legal saber que existe outro modelo de instituição financeira, original e criativo, que auxilia os mais pobres a subir o primeiro degrau do desenvolvimento humano.
E foi assim que a semente do Banco Grammen foi plantada, visando ajudar os mais necessitados de seu país, os pobres dos pobres. Mas para o banco se tornar uma árvore, forte e cheia de frutos, muito esforço foi despreendido e, como esperado, muitas vezes Yunus nadou contra a maré (bancos, governo, amigos, políticos). Porém conseguiu chegar em seu porto seguro tão sonhado após muitas braçadas. Tudo isso é narrado de forma muito fascinante em seu livro O Banqueiro dos Pobres.
O conceito do banco funciona mais ou menos assim: emprestar pequenas somas de dinheiro para que pessoas de baixíssima renda possam desenvolver alguma tarefa autônoma, seja ela a confecção e venda de tapetes, uma pequena mercearia, serviços de sapataria etc. Nenhuma garantia é requerida e, para o assombro da maioria, ainda mais daqueles que desde o começo do projeto piloto qualificaram Muhammad como louco, os pobres se revelaram belos pagadores. A inadimplência do Banco Grammen é de mais ou menos 2%. Isso em um país onde os mais ricos são conhecidos por tomarem empréstimos milionários e não pagarem. Sensasional!
Para funcionar tão bem assim, Yunus foi sensível o suficiente para perceber que seu banco precisava operar com regras muito específicas. A maioria dos tomadores de empréstimo, quer dizer, tomadoras, são mulheres. Os homens dever ficar fora do negócio e não podem até mesmo tomar conta do dinheiro. É possível imaginar tamanha a resistência deste modelo em um país islâmico. Porém, após os primeiros casos de sucesso, o modelo decolou.
Outras exigências são que os filhos da família precisam estar matriculados na escola e frequentando a mesma; os empréstimos são desenbolsados individualmente mas para um grupo de cada aldeia ou bairro, onde cada tomadora tem a função de zelar pela boa prática da outra; caso a soma total mais os (pequenos) juros seja paga, a cliente tem a opção de realizar outro empréstimo, desta vez um pouco maior, para aprimorar seu micro-negócio.
A ideia de tão certo que seu modus operandi foi replicado em vários países do mundo, incluindo o Brasil e até mesmo países desenvolvidos como Canadá e Noruega. É claro que em cada país, onde as condições sociais, culturais e financeiras variam, o banco precisa trabalhar de maneira única, porém o núcleo do sistema continua o mesmo.
Uma das coisas mais interessantes que achei do livro e do Banco Grammen é a dinâmica de trabalho. As agências existem mas os funcionários são instigados a trabalhar, em sua maior parte do tempo, nas aldeias, conversando com potenciais clientes, explicando a maneira como a instituição funciona e convencendo-os de que o banco pode mudar para melhor suas vidas. E realmente muda, como é explicitado durante o livro.
Achei bem legal que o banco em que eu trabalho, o KfW (Banco de Desenvolvimento da Alemanha), possui uma linha de financiamento com juros reduzidos com o Banco Grammen. Meu chefe comentou também que o Yunus já foi várias vezes a Frankfurt realizar palestras e participar de rodas de discussão. Legal saber que existe outro modelo de instituição financeira, original e criativo, que auxilia os mais pobres a subir o primeiro degrau do desenvolvimento humano.
terça-feira, 9 de novembro de 2010
O amor é outra coisa
Estados
El romance es un juego. El noviazgo, un intento. El casamiento es una celebración. El matrimonio, un acuerdo. El amor es otra cosa.
Gravedad, Gabriel Richieri
El romance es un juego. El noviazgo, un intento. El casamiento es una celebración. El matrimonio, un acuerdo. El amor es otra cosa.
Gravedad, Gabriel Richieri
A República Dominicana de hoje e a da ditadura no passado
Depois de três dias em Bogotá acabei indo para Santo Domingo, capital da República Dominicana. Nunca imaginei que fosse conhecer este país, ainda mais tão cedo assim. O congresso para o qual eu havia sido convidado era sobre o mercado de carbono na America Latina e Caribe. Fiz uma apresentação no segundo dia do encontro sobre Programa de Atividades (PoA), um tipo de programa de crédito de carbono onde se pode agrupar vários pequenos projetos semelhantes. Estava um pouco ansioso no começo, nunca havia feito uma palestra pra tanta gente, ainda mais em inglês. Mas deu tudo certo, passei a mensagem.
Pra falar a verdade, eu estava a princípio mais interessado em descobrir como seria a vida neste país caribenho do que nas praias em si. A primeira impressão que tive ao chegar em Santo Domingo foi o calor. Ou melhor, o calor e a umidade, lembrando bastante Manaus, mas talvez não tão perto do inferno quanto a capital do Amazonas.
Tive sorte de ficar hospedado no mesmo hotel onde a conferência se realizou. Uma: o hotel era na beira-mar; apesar de ficar o dia todo infurnado nas salas de conferência, dava pra dar uma escapada até o saguão do hotel e olhar o mar (do lado de dentro, lá fora era muito quente!), parado e verde. Outra: ter um quarto no mesmo local da conferência serviu como ponto de apoio para trabalhar ou até descansar.
Na primeira noite, logo após minha chegada à ilha, pedi informação no guichê e fui até um restaurante pra tirar a barriga da miséria. No pequeno percurso (o restaurante ficava na mesma quadra do hotel) fui abordado mais ou menos 13 vezes por cafetões que queriam porque queriam que eu entrasse nas casas e conhecesse suas garotas. Incrível com eles reconhecem um gringo de longe. Eu não sabia que eu parecia um gringo. Será? Após me desvencilhar de todos eles, cheguei ao restaurante, comi um sanduíche sem graça e conversei um pouco com o garçom, que, segundo ele, havia atendido nosso presidente Lula há pouco tempo. Coitado do Lula se comeu o mesmo sanduíche que eu.
Fiquei impressionado com o tanto de SUVs que andam pelas ruas de Santo Domingo. A cada dois carros, um era grande e alto. Depois de averiguar um pouco descobri as razões: status (como não?) mas também lei da sobrevivência, já que as ruas não são muito boas e no período das chuvas parte delas ficam inundadas. Havia também muitos desses caminhões enormes que a gente só vê nos filmes americanos, como aquele no doFalcão.
Já que não conseguia aproveitar durante o dia, acabei saindo à noite e descobrindo um pouco como a cidade funcionava depois do horário comercial. Nos três dias do fórum acabei indo para bares ou restaurantes com um pessoal que conheci durante o dia. Isso foi bem legal, pessoas do continente todo, alguams eu já conhecia de outros eventos, a maioria não. Em um desses bares, depois de um cocktail organizado pelo evento, estava conversando com meus novos amigos quando, de repente, olho para o fundo do bar e vejo um caboclo, capacete na cuca, taco de beiseball na mão, rebatendo as bolinhas que uma máquina cuspia. Achei incrível, parecia que estava sonhando. Imaginem um bar no Brasil onde se pode jogar beiseball sozinho! Depois fiquei sabendo, este é o esporte mais difundido na República, eles até exportam jogadores pros Estados Unidos. Cada país com seu esporte.
Na útima noite, quando o congresso havia acabado, fomos comemorar em um restaurante requintado na Cidade Colonial. Esta parte da cidade é bem interessante, parece um forte com construções muito antigas, nunca havia visto algo parecido. Comemos muito bem e, pra variar, seguimos pra outro bar depois. Encarnamos o espírito espanhol e acabamos mundando pra outro bar ainda. Esta noite foi bem divertida.
Pra fechar a viagem com chave de ouro, fomos no sábado pra uma praia chamada Guayacanes, distante uma hora da capital. Quem nos levou foi uma local que tinha trabalhado no seminário e fez amizade com a gente. É claro, fomos de SUV para a praia, que era linda! A água do mar era verde azulada ou azul esverdeada, impossível definir. Ficamos a manhã e tarde toda conversando, dando rizada e até eu, que não sou muito fã de água, acabei entrando no mar. Valeu a pena!
***
Um pouco antes de embarcar para a Colômbia e República Dominicana, a Danusa me presenteou com mais um livro do Mario Vargas Llosa, A Festa do Bode. O momento não podia ser melhor, já que a história se passa na Santo Domingo do começo da década de 60 e ilustra quão terrível era vida sob a ditadura de Trujillo, presidente do país que acabou sendo assassinato em 1961.
Até o nome da cidada mudou durante o período da ditadura, tornando-se Capital Trujillo. O ditador era ferrenho, mandava matar seus companheiros por qualquer desconfiança, abusava de suas mulheres, humilhava o povo, e daí pra pior. Lendo o livro tive a impressão de que as ditaduras do Brasil ou Argentina foram fichinhas em comparação com a da República Dominicana.
Como na maioria dos livros do Vargas Llosa que li, a trama é muito bem elaborada. O personagem principal é uma mulher, filha de um alto funcionário durante o regime ditatorial, que volta para Santo Domingo após vários anos de refúgio nos Estados Unidos. Conforme a leitura vai se desenvolvendo, começamos a perceber os reais motivos da volta da personagem principal à terra natal. Paralelamente (característica do escritor) outra trama se desenvolve lentamente: um grupo contra o regime está prestes a atacar o carro do ditador para matá-lo e, talvez assim, acabar com o regime sangrento e injusto.
Foi interessante pelo menos começar a ler o livro antes de chegar em Santo Domingo, pude identificar algumas coisas como nome de praias ou bairros, clima e até a cerveja local, Presidente, que por sinal é muito boa. Talvez se o livro não possuísse tantos detalhes, a leitura fosse um pouco mais dinâmica, mas, de maneira geral, o livro ainda é muito bom e passa um belo panorama das dificuldades deste país durante sua ditadura. Provavelmente se a ditadura ainda estivesse presente, eu não teria conhecido a República Dominicana. Muito menos escrito estas linhas, é claro.
Pra falar a verdade, eu estava a princípio mais interessado em descobrir como seria a vida neste país caribenho do que nas praias em si. A primeira impressão que tive ao chegar em Santo Domingo foi o calor. Ou melhor, o calor e a umidade, lembrando bastante Manaus, mas talvez não tão perto do inferno quanto a capital do Amazonas.
Tive sorte de ficar hospedado no mesmo hotel onde a conferência se realizou. Uma: o hotel era na beira-mar; apesar de ficar o dia todo infurnado nas salas de conferência, dava pra dar uma escapada até o saguão do hotel e olhar o mar (do lado de dentro, lá fora era muito quente!), parado e verde. Outra: ter um quarto no mesmo local da conferência serviu como ponto de apoio para trabalhar ou até descansar.
Na primeira noite, logo após minha chegada à ilha, pedi informação no guichê e fui até um restaurante pra tirar a barriga da miséria. No pequeno percurso (o restaurante ficava na mesma quadra do hotel) fui abordado mais ou menos 13 vezes por cafetões que queriam porque queriam que eu entrasse nas casas e conhecesse suas garotas. Incrível com eles reconhecem um gringo de longe. Eu não sabia que eu parecia um gringo. Será? Após me desvencilhar de todos eles, cheguei ao restaurante, comi um sanduíche sem graça e conversei um pouco com o garçom, que, segundo ele, havia atendido nosso presidente Lula há pouco tempo. Coitado do Lula se comeu o mesmo sanduíche que eu.
Fiquei impressionado com o tanto de SUVs que andam pelas ruas de Santo Domingo. A cada dois carros, um era grande e alto. Depois de averiguar um pouco descobri as razões: status (como não?) mas também lei da sobrevivência, já que as ruas não são muito boas e no período das chuvas parte delas ficam inundadas. Havia também muitos desses caminhões enormes que a gente só vê nos filmes americanos, como aquele no doFalcão.
Já que não conseguia aproveitar durante o dia, acabei saindo à noite e descobrindo um pouco como a cidade funcionava depois do horário comercial. Nos três dias do fórum acabei indo para bares ou restaurantes com um pessoal que conheci durante o dia. Isso foi bem legal, pessoas do continente todo, alguams eu já conhecia de outros eventos, a maioria não. Em um desses bares, depois de um cocktail organizado pelo evento, estava conversando com meus novos amigos quando, de repente, olho para o fundo do bar e vejo um caboclo, capacete na cuca, taco de beiseball na mão, rebatendo as bolinhas que uma máquina cuspia. Achei incrível, parecia que estava sonhando. Imaginem um bar no Brasil onde se pode jogar beiseball sozinho! Depois fiquei sabendo, este é o esporte mais difundido na República, eles até exportam jogadores pros Estados Unidos. Cada país com seu esporte.
Na útima noite, quando o congresso havia acabado, fomos comemorar em um restaurante requintado na Cidade Colonial. Esta parte da cidade é bem interessante, parece um forte com construções muito antigas, nunca havia visto algo parecido. Comemos muito bem e, pra variar, seguimos pra outro bar depois. Encarnamos o espírito espanhol e acabamos mundando pra outro bar ainda. Esta noite foi bem divertida.
Pra fechar a viagem com chave de ouro, fomos no sábado pra uma praia chamada Guayacanes, distante uma hora da capital. Quem nos levou foi uma local que tinha trabalhado no seminário e fez amizade com a gente. É claro, fomos de SUV para a praia, que era linda! A água do mar era verde azulada ou azul esverdeada, impossível definir. Ficamos a manhã e tarde toda conversando, dando rizada e até eu, que não sou muito fã de água, acabei entrando no mar. Valeu a pena!
***
Um pouco antes de embarcar para a Colômbia e República Dominicana, a Danusa me presenteou com mais um livro do Mario Vargas Llosa, A Festa do Bode. O momento não podia ser melhor, já que a história se passa na Santo Domingo do começo da década de 60 e ilustra quão terrível era vida sob a ditadura de Trujillo, presidente do país que acabou sendo assassinato em 1961.
Até o nome da cidada mudou durante o período da ditadura, tornando-se Capital Trujillo. O ditador era ferrenho, mandava matar seus companheiros por qualquer desconfiança, abusava de suas mulheres, humilhava o povo, e daí pra pior. Lendo o livro tive a impressão de que as ditaduras do Brasil ou Argentina foram fichinhas em comparação com a da República Dominicana.
Como na maioria dos livros do Vargas Llosa que li, a trama é muito bem elaborada. O personagem principal é uma mulher, filha de um alto funcionário durante o regime ditatorial, que volta para Santo Domingo após vários anos de refúgio nos Estados Unidos. Conforme a leitura vai se desenvolvendo, começamos a perceber os reais motivos da volta da personagem principal à terra natal. Paralelamente (característica do escritor) outra trama se desenvolve lentamente: um grupo contra o regime está prestes a atacar o carro do ditador para matá-lo e, talvez assim, acabar com o regime sangrento e injusto.
Foi interessante pelo menos começar a ler o livro antes de chegar em Santo Domingo, pude identificar algumas coisas como nome de praias ou bairros, clima e até a cerveja local, Presidente, que por sinal é muito boa. Talvez se o livro não possuísse tantos detalhes, a leitura fosse um pouco mais dinâmica, mas, de maneira geral, o livro ainda é muito bom e passa um belo panorama das dificuldades deste país durante sua ditadura. Provavelmente se a ditadura ainda estivesse presente, eu não teria conhecido a República Dominicana. Muito menos escrito estas linhas, é claro.
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terça-feira, 7 de setembro de 2010
O paraíso na outra esquina
Já tinha o Mario Vargas Llosa em alta conta e, agora que li O paraíso em outra esquina, passo a apreciar ainda mais o escritor peruano e sua obra. Não é para menos, este livro, que narra a vida errante do pintor Paul Gauguin e sua avó, a ativista e feminista Flora Tristan, é excepcional. Uma das coisas que mais me impressionou no romance é o detalhe dos acontecimentos que marcaram a vida da avó e do neto, como se o escritor tivesse vivido ao lado das duas figuras.
De forma intercalada, o livro vai narrando a vida de cada um, tendo como ponto de partida da avó sua viagem que realizou no final de sua vida com o intuito de consientizar os abusos sofridos pela classe operária e a submissão das mulheres. Flora classificava o casamento como um regime de escravidão, onde as mulheres se tornavam meras submissas, sem nenhum poder de voto ou participação real no casamento. Sua sofrida viagem por várias cidades francesas demonstram as barreiras enfrentadas pela idealizadora como a igreja, burguesia e, algumas vezes, até mesmo pela própria classe que ela tentava salvar.
Já no plano do pintor, a narrativa começa quando o mesmo decide morar na Polinésia Francesa em busca de paz e distanciamento da cultura europeia, que ele considerava uma péssima intervenção na produção de qualquer artista. Na cabeça de Gauguin, era no contato com o selvagem e com a natureza em sua forma primoridial que permitiria seus fluidos artísticos inundarem seu corpo. O desenrolar da história de Paul é marcado por deslocamentos cada vez mais longínquos e, entre eles, algumas breves visitas à França. Porém, como desejado pelo artista, o fim de sua história se dá em uma ilha na Polinésia, onde passou por maus bocados antes de falecer.
Apesar de na maioria das vezes a narração se desenvolver intercaladamente e de maneira temporal, alguns flash-backs são misturados abruptamente no texto. Vargas Llosa descreve o traumático casamento que Flora teve antes de abandonar o marido para ir visitar parentes da aristocracia de Lima, no Peru. Tal casamento e, posteriormente, o contato com seus familiares na América do Sul, fizeram com que o sentimento de desigualdade se aflorasse em Flora e fizesse com que ela lutasse por seus ideias. No passado do pintor descobrimos sua péssima relação com a mulher e seus cinco filhos; sua antiga profissão, um abilidoso funcionário do mercado financeiro francês; e o motivo que fez com que ele desse uma radical guinada em sua vida: a pintura.
Apesar de dar a ideia que no decorrer do livro a vida da avó e do neto se intercalariam, pouco se fala de um nas páginas do outro; os dois tiveram muito pouco contato entre si, se é que tiveram. É interessante também observar como a vida levada por Gauguin ia exatamente de encontro ao que a avó pregava: em todo ponto onde o pintor parava, procurava logo no começo uma mulher fácil para ser sua companheira e lhe prover prazer, mesmo que isso implicasse em uma relação submissa ou humilhante para a fêmea.
O encontro que Gauguin teve com Van Gogh, no livro chamado de O Holandês Louco, é outro ponto alto da narrativa. Após muito insistência do pintor holandês, Paul decide ir passar uma temporada na cidade vizinha de Paris onde Van Gogh mantinha seu ateliê. Porém, pouco tempo após o convívio dos dois, a relação se deteriora completamente e Paul decide abandonar o amigo, que fica deprimido com a reação. Foi exatamente nesta época que o Holandês Louco, cheio de aflito e amargura insolúveis, resolve cortar sua própria orelha.
A primeira vez que me deparei com a existência de Gauguin foi ao visitar uma galeria em Londres, onde um quadro seu estava pendurado. O obra de arte retratava uma onça escondida entre arbustos, imagem destoante de suas vizinhas que me chamou a atenção. A legenda dizia que o pintor decidira se refugiar em locais ermos onde seu dia a dia selvagem dava inspiração para suas obras. Como gostaria de poder voltar nesta galeria e observar sua obra, agora que sei muito mais sobre sua incrível história.
De forma intercalada, o livro vai narrando a vida de cada um, tendo como ponto de partida da avó sua viagem que realizou no final de sua vida com o intuito de consientizar os abusos sofridos pela classe operária e a submissão das mulheres. Flora classificava o casamento como um regime de escravidão, onde as mulheres se tornavam meras submissas, sem nenhum poder de voto ou participação real no casamento. Sua sofrida viagem por várias cidades francesas demonstram as barreiras enfrentadas pela idealizadora como a igreja, burguesia e, algumas vezes, até mesmo pela própria classe que ela tentava salvar.
Já no plano do pintor, a narrativa começa quando o mesmo decide morar na Polinésia Francesa em busca de paz e distanciamento da cultura europeia, que ele considerava uma péssima intervenção na produção de qualquer artista. Na cabeça de Gauguin, era no contato com o selvagem e com a natureza em sua forma primoridial que permitiria seus fluidos artísticos inundarem seu corpo. O desenrolar da história de Paul é marcado por deslocamentos cada vez mais longínquos e, entre eles, algumas breves visitas à França. Porém, como desejado pelo artista, o fim de sua história se dá em uma ilha na Polinésia, onde passou por maus bocados antes de falecer.
Apesar de na maioria das vezes a narração se desenvolver intercaladamente e de maneira temporal, alguns flash-backs são misturados abruptamente no texto. Vargas Llosa descreve o traumático casamento que Flora teve antes de abandonar o marido para ir visitar parentes da aristocracia de Lima, no Peru. Tal casamento e, posteriormente, o contato com seus familiares na América do Sul, fizeram com que o sentimento de desigualdade se aflorasse em Flora e fizesse com que ela lutasse por seus ideias. No passado do pintor descobrimos sua péssima relação com a mulher e seus cinco filhos; sua antiga profissão, um abilidoso funcionário do mercado financeiro francês; e o motivo que fez com que ele desse uma radical guinada em sua vida: a pintura.
Apesar de dar a ideia que no decorrer do livro a vida da avó e do neto se intercalariam, pouco se fala de um nas páginas do outro; os dois tiveram muito pouco contato entre si, se é que tiveram. É interessante também observar como a vida levada por Gauguin ia exatamente de encontro ao que a avó pregava: em todo ponto onde o pintor parava, procurava logo no começo uma mulher fácil para ser sua companheira e lhe prover prazer, mesmo que isso implicasse em uma relação submissa ou humilhante para a fêmea.
O encontro que Gauguin teve com Van Gogh, no livro chamado de O Holandês Louco, é outro ponto alto da narrativa. Após muito insistência do pintor holandês, Paul decide ir passar uma temporada na cidade vizinha de Paris onde Van Gogh mantinha seu ateliê. Porém, pouco tempo após o convívio dos dois, a relação se deteriora completamente e Paul decide abandonar o amigo, que fica deprimido com a reação. Foi exatamente nesta época que o Holandês Louco, cheio de aflito e amargura insolúveis, resolve cortar sua própria orelha.
A primeira vez que me deparei com a existência de Gauguin foi ao visitar uma galeria em Londres, onde um quadro seu estava pendurado. O obra de arte retratava uma onça escondida entre arbustos, imagem destoante de suas vizinhas que me chamou a atenção. A legenda dizia que o pintor decidira se refugiar em locais ermos onde seu dia a dia selvagem dava inspiração para suas obras. Como gostaria de poder voltar nesta galeria e observar sua obra, agora que sei muito mais sobre sua incrível história.
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segunda-feira, 16 de agosto de 2010
O homem que queria salvar o mundo
Existem livros bons e ruins. Dentre os bons, existem aqueles ainda que são capazes de abrir a cabeça e apresentar um novo mundo, pessoa, história ou movimento para o leitor. O último livro que li, O homem que queria salvar o mundo, da jornalista Samantha Power, pertence a essa categoria. Nele Samantha conta toda a história de Sergio Vieira de Mello, célebre diplomatada brasileiro da ONU, famoso por ter mediado vários conflitos internacionais como Timor Leste, Ruanda, Bósnia e Iraque, onde faleceu em 2003 após atentado contra a embaixada da ONU.
Vieira de Mello tinha todas as qualidades de um bom diplomata: bom de conversa, culto, pragmático e dinâmico. Gostava de atuar diretamente nos campos de ações, na maioria das vezes conflitos em países estáveis ou campos de refugiados. Tinha horror à vida de burocrata que fica a maioria do tempo dentro de um escritório lendo e escrevendo cartas ou e-mails. Outro fato que o ajudou a se formar ótimo profissional da ONU foi a vivência de sua infância e juventude em diversos países, por causa de seu pai que era funcionário do Itamaraty. Tendo morado na Itália, Beirute e Suíça, Sergio aprendeu a falar com perfeição vários idiomas.
Sua carreira na Organização das Nações Unidas começou muito cedo, quando o brasileiro estava recém-formado. Nos primeiros anos, Sergio se dedicou no braço desta organização responsável pela repatriação de milhares de refugiados que, por diferentes motivos, tiveram que abandonar seus países. Foi o caso de sua missão em Ruanda, onde incontáveis ruandeses se refugiaram no Zaire - que se tornaria posteriormente a República Democrática do Congo - e Uganda.
Tanto esta quanto as futuras missões de Sergio foram marcadas por extrema dificuldade, falta de recursos e complexas relações políticas entre povos e nações. Ainda no caso de Ruanda, o retorno dos ruandeses foram dificultados pelas várias minas terrestres alastradas pelo páis. Para que a repatriação de fato ocorrese, Vieira de Mello precisou conversar com o Kmehr Vermelho, grupo militar e rebelde responsável pela expulsão dos ruandeses de etnia diferente. Esta se tornaria uma das mais marcantes caracteristicas do diplomata: o pragmatismo (ante à burocracia da organização em que trabalhava) e a habilidade de dialogar com todos os lados e não fazer inimigos.
Porém, esta mesma habilidade de sempre prezar o diálogo e manter o caráter independente da ONU na época o fez cometer alguns erros. Um deles foi a falta de reação e conivência com a brutalidade que a Sérvia pressionava e destruia a Bósnia, outro conflito que teve Sergio mediador. Sergio sempre acreditava nas mudanças prometidas pelo governo sérvio, enquanto milhares de bósnios foram cruelmente assassinados e tiveram suas casas destruídas. A ONU só tomaria uma drástica providência no caso do Kosovo, quando a mesma Sérvia, por não cumprir as exigências da ONU de cessar fogo contra os kosovares, foi bombardeada pelas tropas da OTAN. Foi a primeira vez em que a ONU se utilizou da violência para a resolução de um conflito, neste caso pelo aparelhamento das forças militares da OTAN. Foi esta ocasição também que marcou a estréia do exército da OTAN.
Esta missão de paz marcou a história da ONU. Foi quando a organização deixou sua característica imparcial de lado e, forçada pela ocasião deplorável, tomou partido com o intuito de estabilizar a região dos Balcãs. E funcionou. Funcionou também na separação do Timor Leste, que, quando ainda parte da Indonésia, estava sendo atacada por insurgentes militares contra a separação. Neste caso, não havia melhor desiginação que Sergio Vieira de Mello para a missão, devido à sua já acumulada experiência em missões críticas e pelo fato de ser brasileiro, visto que no Timor Leste, antiga colônia de Portugal, também se falava português.
A separação e processo de independência do Timor Leste foi um caso de sucesso. O país estava à beira de ser exterminado pelos indonésios muçulmanos, maioria no país. Após muito luta e intervenção da ONU, a parte oriental da ilha se tornou independente e realizou sua primeira eleição livre. Os novos dirigentes do Timor Leste, eleitos democraticamente, eram os antigos militantes da vertente que apoiavam a independência do Timor Leste. Suas amizades com Vieira de Mello durou muito tempo mais após a partida do brasileiro, que era visto como ídolo pelos timorenses.
Quando a guerra do Iraque eclodiu, Sergio estava em uma nova fase de sua vida. Estava, pela primeira vez, dedicando parte de seu tempo com a vida privada. Estava fazendo planos particulares com sua recém-namorada, uma Argentina que também trabalhava na ONU. Sergio estava cansado de morar sempre em um lugar diferente, muitas vezes com nenhum luxo ou até mesmo em grande perigo. Ele foi, desde o começo, totalmente contra a guerra do Iraque. Porém, quando a ONU decidiu que iria manter uma tropa de paz neste país, Vieira de Mello era o candidato imbatível. Apesar de não estar animado de, mais uma vez, abandonar seus planos priavados e embarcar em uma missão do outro lado do mundo, Sergio era vaidoso. E, provavelmente, foi sua vaidade que o fez mudar de ideia. Em suas palavras, ele não podia negar um favor para o secretário-geral da ONU, na época Koffi Annan.
O diplomata brasileiro acabou embarcando na missão do Iraque. Sua tarefa no país árabe rico em petróleo, foi, de um lado, dialogar com o responsável pela força militar americana no país e, de outro, conversar e barganhar com a ONU com o intuito de direcionar a população do Iraque para um futuro promissor. O Iraque foi invadido e desestabilizado em pouco tempo. Os EUA achavam que já estava com a missão completa, poucos meses seriam necessário para colocar o Iraque de volta em funcionamento. Porém, como se mostrou, os maiores problemas começaram logo após a derrubado do ditador Saddam Husein. Insurgentes começaram a promover atentados contra a ocupação americana. Poucas pessoas estavam felizes com a novo país sitiado.
Sergio e seus colegas da missão do Iraque sabiam que a situação estava perigosíssima. Além da ocupação americana, a ONU começara a ser vista como uma presença indesejável. Rumores de atentados contra a organização começaram a se tornar mais comuns cada dia que passava. Até que o temido aconteceu: um caminhão carregado de bombas e explosivos rumou contra a sede da ONU no país e causou uma grande explosão. Muitas pessoas pagaram com suas vidas neste atentado, inclusive Sergio Vieira de Mello. O caminhão colidiu muito perto de ser escritório e o brasileiro, que não morreu instantaneamente, ficou soterrado e acabou não resistindo.
Após o trágico atentado que tirou a vida de um dos melhores diplomatas do Brasil, muito se foi discutido se a ONU deveria ou não permanecer no Iraque. Muitos colocaram a culpa na negligência da alta cúpula da organização, inclusive em Koffi Annan, que permitiu que seus trabalhadores ficassem em um local sem grande proteção. Os possíveis motivos do ataque foram exaustivamente investigados. O mais provável é que a ONU, principalmente Segio Vieira de Mello, devido à sua atuação no Timor Leste, era mal vista pelos iraquianos. A bandeira da ONU acabou se deixando confundir com a dos Estados Unidos. O fato é que o homem que queria salvar o mundo acabou morrendo tentando solucionar uma guerra que ele não havia começado. E pior, que era estritamente contra.
Vieira de Mello tinha todas as qualidades de um bom diplomata: bom de conversa, culto, pragmático e dinâmico. Gostava de atuar diretamente nos campos de ações, na maioria das vezes conflitos em países estáveis ou campos de refugiados. Tinha horror à vida de burocrata que fica a maioria do tempo dentro de um escritório lendo e escrevendo cartas ou e-mails. Outro fato que o ajudou a se formar ótimo profissional da ONU foi a vivência de sua infância e juventude em diversos países, por causa de seu pai que era funcionário do Itamaraty. Tendo morado na Itália, Beirute e Suíça, Sergio aprendeu a falar com perfeição vários idiomas.
Sua carreira na Organização das Nações Unidas começou muito cedo, quando o brasileiro estava recém-formado. Nos primeiros anos, Sergio se dedicou no braço desta organização responsável pela repatriação de milhares de refugiados que, por diferentes motivos, tiveram que abandonar seus países. Foi o caso de sua missão em Ruanda, onde incontáveis ruandeses se refugiaram no Zaire - que se tornaria posteriormente a República Democrática do Congo - e Uganda.
Tanto esta quanto as futuras missões de Sergio foram marcadas por extrema dificuldade, falta de recursos e complexas relações políticas entre povos e nações. Ainda no caso de Ruanda, o retorno dos ruandeses foram dificultados pelas várias minas terrestres alastradas pelo páis. Para que a repatriação de fato ocorrese, Vieira de Mello precisou conversar com o Kmehr Vermelho, grupo militar e rebelde responsável pela expulsão dos ruandeses de etnia diferente. Esta se tornaria uma das mais marcantes caracteristicas do diplomata: o pragmatismo (ante à burocracia da organização em que trabalhava) e a habilidade de dialogar com todos os lados e não fazer inimigos.
Porém, esta mesma habilidade de sempre prezar o diálogo e manter o caráter independente da ONU na época o fez cometer alguns erros. Um deles foi a falta de reação e conivência com a brutalidade que a Sérvia pressionava e destruia a Bósnia, outro conflito que teve Sergio mediador. Sergio sempre acreditava nas mudanças prometidas pelo governo sérvio, enquanto milhares de bósnios foram cruelmente assassinados e tiveram suas casas destruídas. A ONU só tomaria uma drástica providência no caso do Kosovo, quando a mesma Sérvia, por não cumprir as exigências da ONU de cessar fogo contra os kosovares, foi bombardeada pelas tropas da OTAN. Foi a primeira vez em que a ONU se utilizou da violência para a resolução de um conflito, neste caso pelo aparelhamento das forças militares da OTAN. Foi esta ocasição também que marcou a estréia do exército da OTAN.
Esta missão de paz marcou a história da ONU. Foi quando a organização deixou sua característica imparcial de lado e, forçada pela ocasião deplorável, tomou partido com o intuito de estabilizar a região dos Balcãs. E funcionou. Funcionou também na separação do Timor Leste, que, quando ainda parte da Indonésia, estava sendo atacada por insurgentes militares contra a separação. Neste caso, não havia melhor desiginação que Sergio Vieira de Mello para a missão, devido à sua já acumulada experiência em missões críticas e pelo fato de ser brasileiro, visto que no Timor Leste, antiga colônia de Portugal, também se falava português.
A separação e processo de independência do Timor Leste foi um caso de sucesso. O país estava à beira de ser exterminado pelos indonésios muçulmanos, maioria no país. Após muito luta e intervenção da ONU, a parte oriental da ilha se tornou independente e realizou sua primeira eleição livre. Os novos dirigentes do Timor Leste, eleitos democraticamente, eram os antigos militantes da vertente que apoiavam a independência do Timor Leste. Suas amizades com Vieira de Mello durou muito tempo mais após a partida do brasileiro, que era visto como ídolo pelos timorenses.
Quando a guerra do Iraque eclodiu, Sergio estava em uma nova fase de sua vida. Estava, pela primeira vez, dedicando parte de seu tempo com a vida privada. Estava fazendo planos particulares com sua recém-namorada, uma Argentina que também trabalhava na ONU. Sergio estava cansado de morar sempre em um lugar diferente, muitas vezes com nenhum luxo ou até mesmo em grande perigo. Ele foi, desde o começo, totalmente contra a guerra do Iraque. Porém, quando a ONU decidiu que iria manter uma tropa de paz neste país, Vieira de Mello era o candidato imbatível. Apesar de não estar animado de, mais uma vez, abandonar seus planos priavados e embarcar em uma missão do outro lado do mundo, Sergio era vaidoso. E, provavelmente, foi sua vaidade que o fez mudar de ideia. Em suas palavras, ele não podia negar um favor para o secretário-geral da ONU, na época Koffi Annan.
O diplomata brasileiro acabou embarcando na missão do Iraque. Sua tarefa no país árabe rico em petróleo, foi, de um lado, dialogar com o responsável pela força militar americana no país e, de outro, conversar e barganhar com a ONU com o intuito de direcionar a população do Iraque para um futuro promissor. O Iraque foi invadido e desestabilizado em pouco tempo. Os EUA achavam que já estava com a missão completa, poucos meses seriam necessário para colocar o Iraque de volta em funcionamento. Porém, como se mostrou, os maiores problemas começaram logo após a derrubado do ditador Saddam Husein. Insurgentes começaram a promover atentados contra a ocupação americana. Poucas pessoas estavam felizes com a novo país sitiado.
Sergio e seus colegas da missão do Iraque sabiam que a situação estava perigosíssima. Além da ocupação americana, a ONU começara a ser vista como uma presença indesejável. Rumores de atentados contra a organização começaram a se tornar mais comuns cada dia que passava. Até que o temido aconteceu: um caminhão carregado de bombas e explosivos rumou contra a sede da ONU no país e causou uma grande explosão. Muitas pessoas pagaram com suas vidas neste atentado, inclusive Sergio Vieira de Mello. O caminhão colidiu muito perto de ser escritório e o brasileiro, que não morreu instantaneamente, ficou soterrado e acabou não resistindo.
Após o trágico atentado que tirou a vida de um dos melhores diplomatas do Brasil, muito se foi discutido se a ONU deveria ou não permanecer no Iraque. Muitos colocaram a culpa na negligência da alta cúpula da organização, inclusive em Koffi Annan, que permitiu que seus trabalhadores ficassem em um local sem grande proteção. Os possíveis motivos do ataque foram exaustivamente investigados. O mais provável é que a ONU, principalmente Segio Vieira de Mello, devido à sua atuação no Timor Leste, era mal vista pelos iraquianos. A bandeira da ONU acabou se deixando confundir com a dos Estados Unidos. O fato é que o homem que queria salvar o mundo acabou morrendo tentando solucionar uma guerra que ele não havia começado. E pior, que era estritamente contra.
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
O Segundo Mundo: impérios e influência na nova ordem global
Parag Khanna é um jovem cientista político nascido na Índia e criado nos Emirados Árabes Unidos, Estados Unidos e Alemanha. Já trabalhou para instituições de peso como Foro Econômico Mundial em Genebra, Conselho de Relações Exteriores e atuou como assessor geopolítico das Forças de Operações Especiais dos Estados Unidos no Iraque e Afeganistão. Em seu recente livro, O Segundo Mundo, Khanna aborda a relação das maiores superpotências mundiais, China, EUA e União Européia, com os países denominados de segundo mundo - que mesclam características tanto de países desenvolvidos como de em desenvolvimento. As específicas análises de cada país, divididos em capítulos, nos dão noção de como a nova ordem global vai se desenvolvendo através de novas alianças, investimentos e conflitos entre os países.
No decorrer do livro, é perceptível a maneira, muitas vezes destoante, que cada superpotência explora sua política externa e desenvolve novas parcerias e programas de cooperação com as nações de segundo mundo. Os Estados Unidos, basicamente, praticam uma política externa baseada em interesses e demasiadamente preocupada com o terrorismo. Suas ações, diferentemente do bloco europeu, não conseguiram integrar economicamente o vizinho México, que há 20 anos era uma das maiores apostas do desenvolvimento econômico mas que não conseguiu decolar. Enquanto isso, a China vem fazendo acordos de cooperação e investimentos em infra-estrutura com inúmeros países em desenvolvimento de todos os continentes, recebendo em troca energia para continuar crescendo à mesma taxa. Sua atuação é muito mais expressiva que a dos Estados Unidos, e Pequim não se importa em negociar com diferentes tipos de regimes, mesmo que ditatoriais. Afinal, a China é uma ditadura: possui uma pujante economia de mercado onde o Estado controla basicamente tudo. Já a Europa, figura entre as outras duas superpotências com um modelo expansionista, arquitetando políticas e metodologias para a adesão de mais países ao maior bloco político e econômico do mundo. Sua eficiente maneira de integrar países vizinhos mais pobres é um exemplo para outros blocos. A livre circulação e melhoria na qualidade de vida dos cidadãos dos países-membros já é uma realidade.
Os perspicazes relatos dos países me atraíram muito, acredito que o fato do autor ter viajado para mais de 100 países contribuiu bastante para a qualidade dos textos. Em especial, gostei de ler sobre a Líbia, Cazaquistão e Malásia, países que eu não conhecia muito a respeito, mas que me surpreenderam por suas qualidades e políticas assertivas. A Líbia, apesar de ser considerada país terrorista pelos EUA, possui a maior renda per-capita da região, atraindo pessoas do Marrocos, Egito e Tunísia. O Cazaquistão, que destoa de todos os outros países istões, se assemelha com a Turquia ao possuir a chamada política multivetorial, característica quando um país se relaciona bem com outros Estados antagônicos. Seus oleodutos, comparados pelo autor com cabos de fibra ótica como vestígios invisíveis da globalização, estão garantindo crescimento econômico e deslocando o eixo de relações da Rússia para a China, que por sua vez tem investido maciçamente no setor energético cazaque. Khanna também aborda a questão da religião e sua relação com os países, sendo a Malásia um caso exemplar, onde o islamismo é considerado moderado e não interfere negativamente na vida das pessoas. A Malásia é também um exemplo de gestão econômica moderada – protegendo dos excessos que o capitalismo pode provocar - que deu certo e os frutos, garantidos pelo crescimento econômico, estão sendo colhidos.
As análises sobre o Brasil e sua relação com as superpotências são verdadeiras e profundas, mas às vezes um pouco exageradas. O autor comentou sobre a produção e utilização do etanol como combustível para veículos, constituindo um exemplo para diminuir a dependência de combustíveis fósseis. Abordou também o crescimento econômico que não é dividido igualmente entre os cidadãos, criando condições para o florescimento da violência e crime organizado. Porém, relatou de maneira exagerada, que pessoas da alta sociedade não podem ficar tranquilas nem em restaurantes xiques, õque suas bolsas podem ser roubadas a qualquer momento. Achei também que faltou abordar mais sobre o Mercosul, e já que este bloco não ocupa posição de destaque no mundo ou seja exemplo de acerto, haveria motivo e lugar para críticas e comentários.
A falta de capítulos destinados à Africa do Sul e Índia também me surpreenderam. Acredito que a frustração do autor com sua terra natal, mesmo esta tendo atingido elevados índices de crescimento nos últimos anos, o tenha motivado para excluí-la injustamente do livro. Gostaria de saber mais sobre a complexa e atritante relação diplomática entre Índia e China, já que a última foi considerada no livro uma das três superpotência globais. Já sobre a África do Sul, gostaria de saber como se dá a relação das potências com este país, visto que ele se situa, de maneira geral, igualmente distante das três. A contrário do que foi comentado por um blogueiro, a maneira superficial com que os países da América Latina, em comparação com os da Ásia Central ou Oriente Médio, foram analisados, não me surpreendeu. Acredito que os países asiáticos possuem elementos chave muito mais interessantes que tangem temas como globalização, religião, geopolítica e acelerados crescimentos econômicos.
Ao ler o livro, a mensagem é clara: a estratégia energética desempenha hoje um papel ainda maior na globalização e relação entre Estados. Da mesma maneira que reservas energéticas podem salvar um país, é possível, através de gestão ineficiente e corrupção, que esta dádiva contribua para a total destruição democrática e social de uma nação. É este o caso da Venezuela, membro da OPEP que, admiravelmente, enfrenta hoje racionamento de água e energia. Ficou evidente também que a política externa dos Estados Unidos não tem trazido resultados positivos, e a imagem deste país no mundo, sobretudo no Oriente Médio, está casa vez pior. O autor ainda enfatiza, que se a atual maior potância do mundo não tomar cuidado e inverter o jogo, é provável que descambe para o segundo mundo. Sem contar que quando o livro foi escrito, a crise mundial financeira, que abalou principalmente os EUA, não havia eclodido ainda. É preciso tomar cuidado, a geopolítica é um constante jogo sem fim onde os times revezam a liderança.
No decorrer do livro, é perceptível a maneira, muitas vezes destoante, que cada superpotência explora sua política externa e desenvolve novas parcerias e programas de cooperação com as nações de segundo mundo. Os Estados Unidos, basicamente, praticam uma política externa baseada em interesses e demasiadamente preocupada com o terrorismo. Suas ações, diferentemente do bloco europeu, não conseguiram integrar economicamente o vizinho México, que há 20 anos era uma das maiores apostas do desenvolvimento econômico mas que não conseguiu decolar. Enquanto isso, a China vem fazendo acordos de cooperação e investimentos em infra-estrutura com inúmeros países em desenvolvimento de todos os continentes, recebendo em troca energia para continuar crescendo à mesma taxa. Sua atuação é muito mais expressiva que a dos Estados Unidos, e Pequim não se importa em negociar com diferentes tipos de regimes, mesmo que ditatoriais. Afinal, a China é uma ditadura: possui uma pujante economia de mercado onde o Estado controla basicamente tudo. Já a Europa, figura entre as outras duas superpotências com um modelo expansionista, arquitetando políticas e metodologias para a adesão de mais países ao maior bloco político e econômico do mundo. Sua eficiente maneira de integrar países vizinhos mais pobres é um exemplo para outros blocos. A livre circulação e melhoria na qualidade de vida dos cidadãos dos países-membros já é uma realidade.
Os perspicazes relatos dos países me atraíram muito, acredito que o fato do autor ter viajado para mais de 100 países contribuiu bastante para a qualidade dos textos. Em especial, gostei de ler sobre a Líbia, Cazaquistão e Malásia, países que eu não conhecia muito a respeito, mas que me surpreenderam por suas qualidades e políticas assertivas. A Líbia, apesar de ser considerada país terrorista pelos EUA, possui a maior renda per-capita da região, atraindo pessoas do Marrocos, Egito e Tunísia. O Cazaquistão, que destoa de todos os outros países istões, se assemelha com a Turquia ao possuir a chamada política multivetorial, característica quando um país se relaciona bem com outros Estados antagônicos. Seus oleodutos, comparados pelo autor com cabos de fibra ótica como vestígios invisíveis da globalização, estão garantindo crescimento econômico e deslocando o eixo de relações da Rússia para a China, que por sua vez tem investido maciçamente no setor energético cazaque. Khanna também aborda a questão da religião e sua relação com os países, sendo a Malásia um caso exemplar, onde o islamismo é considerado moderado e não interfere negativamente na vida das pessoas. A Malásia é também um exemplo de gestão econômica moderada – protegendo dos excessos que o capitalismo pode provocar - que deu certo e os frutos, garantidos pelo crescimento econômico, estão sendo colhidos.
As análises sobre o Brasil e sua relação com as superpotências são verdadeiras e profundas, mas às vezes um pouco exageradas. O autor comentou sobre a produção e utilização do etanol como combustível para veículos, constituindo um exemplo para diminuir a dependência de combustíveis fósseis. Abordou também o crescimento econômico que não é dividido igualmente entre os cidadãos, criando condições para o florescimento da violência e crime organizado. Porém, relatou de maneira exagerada, que pessoas da alta sociedade não podem ficar tranquilas nem em restaurantes xiques, õque suas bolsas podem ser roubadas a qualquer momento. Achei também que faltou abordar mais sobre o Mercosul, e já que este bloco não ocupa posição de destaque no mundo ou seja exemplo de acerto, haveria motivo e lugar para críticas e comentários.
A falta de capítulos destinados à Africa do Sul e Índia também me surpreenderam. Acredito que a frustração do autor com sua terra natal, mesmo esta tendo atingido elevados índices de crescimento nos últimos anos, o tenha motivado para excluí-la injustamente do livro. Gostaria de saber mais sobre a complexa e atritante relação diplomática entre Índia e China, já que a última foi considerada no livro uma das três superpotência globais. Já sobre a África do Sul, gostaria de saber como se dá a relação das potências com este país, visto que ele se situa, de maneira geral, igualmente distante das três. A contrário do que foi comentado por um blogueiro, a maneira superficial com que os países da América Latina, em comparação com os da Ásia Central ou Oriente Médio, foram analisados, não me surpreendeu. Acredito que os países asiáticos possuem elementos chave muito mais interessantes que tangem temas como globalização, religião, geopolítica e acelerados crescimentos econômicos.
Ao ler o livro, a mensagem é clara: a estratégia energética desempenha hoje um papel ainda maior na globalização e relação entre Estados. Da mesma maneira que reservas energéticas podem salvar um país, é possível, através de gestão ineficiente e corrupção, que esta dádiva contribua para a total destruição democrática e social de uma nação. É este o caso da Venezuela, membro da OPEP que, admiravelmente, enfrenta hoje racionamento de água e energia. Ficou evidente também que a política externa dos Estados Unidos não tem trazido resultados positivos, e a imagem deste país no mundo, sobretudo no Oriente Médio, está casa vez pior. O autor ainda enfatiza, que se a atual maior potância do mundo não tomar cuidado e inverter o jogo, é provável que descambe para o segundo mundo. Sem contar que quando o livro foi escrito, a crise mundial financeira, que abalou principalmente os EUA, não havia eclodido ainda. É preciso tomar cuidado, a geopolítica é um constante jogo sem fim onde os times revezam a liderança.
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