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quarta-feira, 13 de abril de 2011

O norte oriental de Milton Hatoum

Fugindo de sua constante de produzir romances, todos entre cem e duzentas e poucas páginas e bem intercalados temporalmente, Milton Hatoum escreveu por último um ótimo livro de contos, A cidade ilhada. Escritor manauara de origem libanesa, Hatoum deixa sua ascendência e impressões da civilização na selva influenciar todas suas histórias. Outra característica marcante de seus livros é a difícil relação que se pode dar entre pai e filho, presentes exacerbadamente em Cinzas do Norte e Orfãos do Edorado.

Tomei conhecimento deste magnífico escritor através de um amigo, que, na época, estava prestando vestibular e me recomendeu Dois irmãos, que cairia na prova. Ao me contar os acontecimentos e artifícios utilizados pelo escritor, achei interessante e acabei comprando uma edição de bolso deste livro. Nesta obra, todas suas características básicas estão presentes: a dificuldade do relacionamento familiar, raízes orientais, vida na Amazônia etc. Sem falar no final surpreendente e dúbio, que deixa o leitor intrigado. Acredito que esta é a obra mais completa do escritor e foi aí que comecei a admirar seus livros e originalidade.

Os relatos de A cidade ilhada são diversificados, excetuando a correspondência, física ou histórica, com Manaus e região. Em um conto, adolescentes resolvem, após duradouros momentos de ansiedade e impaciência, ir a um bordel em busca de novas experiências; o final, surpreendente e cômico. Em outra estória, o amor platônico entre dois jovens vizinhos que não possuem contato algum, seguido de uma repentina mudança de uma das famílias, de origem inglesa.

O fascínio também é tema dos contos de Hatoum. Em um, um renomado pesquisador japonês desenvolve um laço profundo com a região da Amazônia; em outro, é a vez de um morador da região expressar sua admiração pela França e língua francesa a um de seus pupilos, prester a conhecer o país que o admirador nunca teva a oportunidade.

Porém, um dos contos mais marcantes se intitula O adeus do comandante. Marca do escritor em seus contos, ele começa com algum personagem relatando um acontecimento, que é o próprio conto em si. Neste caso, um comandante de barco que, no meio de sua travessia, com os passageiros a bordo, abandona o barco em um ponto do percurso, para vingar uma traição com sua mulher. É explicado então, finalmente, o propósito do caixão que estava sendo transportado no barco e que assustava os passageiros, gerando especulações das mais diversas. Para mim, este é um ótimo exemplo de como o sentimento de desespero e intriga dos personagens são bem detalhados, mas também um fascinante desenrolar da narrativa em si.

Após ter lido todos seus livros publicados, que ainda não são muitos, confesso que só não gostei muito de um só, sua primeira obra: Relato de um certo Oriente. Achei a trama complexa demais a ponto de não entender certos detalhes e relações. Talvez porque na época da leitura o ambiente não me ajudou: estava na sala de aula da faculdade, desanimado com o curso, no meio do barulho infernal dos meus amigos, também desanimados, mas com a prosa em vez da leitura como refúgio.

Só me resta agora aguardar o lançamento da próxima obra de arte do Milton Hatoum. Pelo menos existe, como remédio, a opção de ler suas crônicas no Estadão a cada quinza dias, às sextas-feiras. Sempre o faço após terminar o trabalho, um pouco antes de deixar o escritório e ir para casa. É um ótimo começo para o meu final de semana.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

(Quase) Do Oiapoque ao Chuí: de Manaus a Porto Alegre

Logo depois de voltar do Rio de Janeiro, onde tive muito azar com o tempo e aproveitei pra fazer passeios diferentes do que se espera de uma cidade como o Rio, embarquei para Manaus. O vôo demorou menos do que eu esperava, três horas e pouco, e quando cheguei à capital amazonense, senti na pele – literalmente – o estafante calor desta cidade. Já que toquei no tema calor, não posso deixar de mencionar: é impressionante como o calor de Manaus incomoda. É um calor diferente, gruda na pele, impregna. Tudo bem, Manaus também não colaborou, o primeiro dia foi o mais quente dos seis que eu fiquei lá e, à noite, conversando com a Raquel no apartamento dela, a energia acabou e o ar condicionado parou! Não faltou mais nada.

Manaus é uma cidade ímpar, não tem como não ser: está no meio da Amazônia, cercada por rios, aguapés e muita floresta, distante de todos os outros pólos brasileiros. Todos os caminhões que chegam a Manaus precisam pegar, de Belém, uma balsa que demora mais ou menos três dias para chegar. Outra coisa que me chamou a atenção também foi o orgulho dos manauaras com a cidade natal. Manaus funciona também como um imã estadual, assim como a maioria das capitais, atraindo muitas pessoas em busca de oportunidades e uma vida mais promissora; com a única diferença que para chegar a Manaus, o transporte utilizado geralmente são as chalanas ou barcos, em vez de ônibus ou carros.

Culturalmente, Manaus tem muito a oferecer, e, de muitas atrações, é possível relacionar com o famoso e rico ciclo da borracha que ocorreu nesta mesma cidade há mais ou menos 100 anos. Grandes exemplos são: o Teatro Amazonas, lindo lugar construído na época do apogeu de Manaus e há pouco revitalizado; Palacete Provincial, anexo que engloba a pinacoteca e outros museus, com destaque para os quadros modernos com temas regionais; Palácio Rio Negro; Ponte Benjamim Constante, etc.

Estando no meio da Floresta amazônica não pude deixar de ir para um hotel na selva. Na verdade quem realmente possibilitou esse passeio foi o Fabian, amigo do meu tio, que como já havia trabalhado no Ariaú – um dos hotéis de selva mais famosos em Manaus com uma estrutura toda em palafitas de tirar o chapéu – consegui um super desconto pra mim, Raquel e Bruna, amiga da Raquel que também aproveitou a ocasião para ir visitá-la. A experiência foi incrível, o hotel é muito extenso e só o fato de estar no meio do nada, do verde, faz do lugar muito interessante. Sem contar as comidas típicas servidas no almoço e jantares, os passeios como focagem de jacaré e caminhada na selva, etc. Ficamos pouco, dormimos só uma noite, mas foi muito interessante pra conhecer a selva.

Outro passeio típico de Manaus é o Encontro das Águas, onde o Rio Negro encontra o Solimões. Eu e a Bruna fomos de ônibus até o CEASA (muito longe!) e fizemos o passeio com um piloteiro simpático. Depois, como estava na hora do almoço, acabamos comendo em um restaurante bem simples perto do CEASA mesmo. Claro, comemos peixe e tomamos tubaína, muito bom!

Notei também que em Manaus, apesar de ser perceptível sua população humilde e pobre, existem muitas pessoas ricas. É muito comum encontrar carrões importados nas ruas e existem diversos lugares finíssimos, como o Shopping Manauara ou alguns bares.

No meu último dia, acordei e fui direto pro aeroporto, meu vôo saía na hora do almoço mais ou menos. Estava muito cansado de tanto ter perambulado pela cidade e conhecido tantos lugares. Estava também um pouco aliviado de dizer adeus àquele calor estafante, subumano. Cheguei em Indaiatuba no final da tarde e fui jantar na Casa da Esfiha com a família e o Daniel. Já estava com passagem marcada para embarcar no dia seguinte pra Porto Alegre, extremo sul do país. No restaurante mesmo liguei pro Odécio e perguntei se tinha como ficar hospedado na casa dele. Claro, ele me disse. Ótimo!

***

Porto Alegre é muito diferente de Manaus, em todos os aspectos: população, paisagem, clima, desenvolvimento, etc. Não quero aqui, porém, comparar as duas capitais, são diferentes e pronto. Achei bem interessante em menos de 24 horas sair do extremo norte e ir para o extremo sul brasileiro. Diferente de Manaus, já havia estado em POA antes desta viagem. Esta segunda vez foi importante pra me confirmar a impressão que eu tinha da capital gaúcha: uma cidade muito interessante e agradável, provavelmente um lugar muito bom pra se viver, tirando o orgulho cego e irritante dos gaúchos.

Foi muito legal rever pessoas que eu não via há muito tempo, como o Odécio e o pessoal que morou comigo em Londres: Cláudia, Thiago e Gabriel. Com os últimos, saí uma noite em um bar muito legal de um bairro agitado de Porto Alegre; ficamos conversando horas a fio sobre nossas experiências em Londres e o que fizemos depois que nos separamos, após o regresso individual de cada um de nós para nossa terra. Do Odécio eu não preciso falar nada, continua a mesma figura de sempre, incrível!

Como da primeira vez, fui à Usina do Gasômetro e vi o pôr do sol no Guaíba, indescritível. Indescritível também o louco que ficou resmungando e praguejando do meu lado enquanto eu tirava foto do rio engolindo o sol, mas foi só olhar com cara de bravo pra ele que ele sumiu rapidinho. Também fui aos inúmeros sebos da Rua Riachuelo e comprei uns quatro livros: dois do local Bettega, um do paranaense Luis Henrique Pellanda (ótimo!) e um do turco Orhan Pamuk. Impressionante como esta cidade tem sebos, o pessoal do sul deve ler muito mesmo.

Repeti também os passeios no parque da Redenção, onde fiquei lendo a Piauí do mês por muito tempo; cada de cultura do Mário Quintana, onde descobri um bar/café no último andar que igualmente como a Usina, tinha uma vista espetacular do Guaíba; e almoço no Mercado Público: um prato com bife + Serra Malte. Do que mais eu precisava?

No último dia acordei e já rumei pro aeroporto de trem. Almocei no aeroporto mesmo e chegando no Viracopos, peguei um ônibus da Azul pra São Paulo pra ir com a Danusa no aniversário da prima dela.